11 de janeiro de 2006

Faça Guerra, Não faça Amor!


11/01/2006

Repassando ... (essa matéria não foi escrita por mim)
Colaboração: Daniele Aiso

The New York Times

04/01/2006

Somini Sengupta
MEERUT, Índia – Em uma gélida tarde de inverno nessa pequena cidade do norte da Índia, vários casais – alguns casados, outros não – sentavam-se nos bancos de um pequeno parque bem ajeitadinho que recebeu seu nome por causa do maior defensor da não-violência do país: Mohandas K. Gandhi.

Logo apareceu um bando de policiais com cacetetes e câmeras de TV. Eles agarraram os jovens pelo pescoço, como se fossem criminosos, e bateram neles. As jovens tentavam se defender com seus chales. Os homens se encolhiam com medo das câmeras.

Aparentemente destinado a acabar com aquilo que a polícia considera atos indecentes de afeto em público entre casais, o combate transmitido em rede nacional direto do parque Gandhi foi um absurdo. Ele desencadeou uma onda de críticas contra a brutalidade policial, fez com que pelo menos um casal de jovens fugissem de casa por alguns dias, e revelou uma divisão sobre noções de moral e direitos individuais em um país embebido nas tradições, no qual as novas gerações clamam por mudanças.

“Isso é um abuso ao nosso direito à liberdade”, reclamou Vikas Garg, 21, um estudante de comunicação na universidade de Chaudhry Charan Singh, alguns dias depois da investida policial. “Somos livres para sentar onde quisermos”.

Policiais de Meerut reconheceram que alguns de seus colegas extrapolaram, mas defenderam suas ações. Os casais sentavam em “poses repreensíveis”, disse Mamta Gautam, uma das policiais acusadas pela ação. Gautam continuou, batendo naqueles que tentavam fugir, quando a polícia pegava os nomes e endereços dos “delinqüentes”. “Se não estivessem fazendo nada ilegal, por que tentavam fugir?” a policial perguntava. “Não acho que aquilo que fizemos foi errado”.

No final da semana, depois de revoltas populares, Gautam e três outros policiais foram suspensos, incluindo o superintendente de polícia, que está sob investigação interna.

Em uma sociedade na qual o namoro é visto com desdém, parques públicos são os únicos lugares onde os casais podem demonstrar um pouco de afetividade uns aos outros, sob sombras de árvores frondosas. Mesmo debaixo da luz do dia, em um parque público, o namoro antes do casamento permanece um tabu nas cidades indianas, a razão pela qual o espetáculo no parque Gandhi tomou tamanha proporção: ser abordado dessa maneira, em rede nacional de TV, traz muita vergonha e recriminação para você e seus familiares.

Foi tão alarmante para Amit Sharma e sua namorada, que eles saíram de casa depois do incidente, retornando apenas um dia depois, quando seus pais os encontraram em uma cidade das redondezas e, em princípio, deram a permissão para o casamento.

Alguns dias depois, Sharma, 22 anos e desempregado, descreveu o incidente desprezível. A polícia abordou os casais no parque “como se fossemos terroristas”, pegou-os pelo pescoço, insultou-os e separou os homens das mulheres. Ele podia escutar sua namorada, Anshu, chorando enquanto a polícia gritava com ela: “seus pais te mandaram à escola para estudar! O que está fazendo aqui?”

“Eu implorei para a polícia, ‘por favor, nos libere’” ele lembrava. No final das contas, eles todos foram liberados, ninguém foi acusado por crimes.

Naquela tarde no parque Gandhi, até mesmo uma jovem que se sentava sozinha não foi poupada. A mulher, que preferiu ser chamada de Priyanka, disse que estava esperando alguém no banco quando a gritaria dos policiais interrompeu seus pensamentos. Levantando do banco, Priyanka disse que caminhou na direção das vozes quando uma policial, Gautam, a mesma de antes, bateu nela e a acusou de ser uma prostituta.

Para piorar, Priyanka disse, a policial a chamou de “chamari”, uma calúnia que se refere à casta que ela pertence. (Gautam negou a afirmação).

Priynka fez uma queixa na polícia. “Eles não me perguntaram nada”, ela lembrou. “Só começaram a bater em mim. Agora as pessoas na minha cidade estão lendo os jornais na frente do meu pai”.

O episódio instaurou uma comoção nacional. A Comissão Nacional de Direitos Humanos pediu um inquérito policial, e seu presidente, Justice A. S. Anand, foi à televisão e declarou: “nenhum Estado civilizado permite esse tipo de humilhação a seus cidadãos”.

A esquerda e a direita política condenaram a ação policial. Brida Karat, a mais importante mulher que representa a coalizão de partidos de esquerda no governo, denunciou a polícia por agressão a jovens casais enquanto estupros violentos continuam sem solução. Sushma Swaraj, um legislador do Partido Bharatiya Janata, oposição nacionalista hindu, tomou o palanque do Parlamento e chamou o acontecimento de produto de “uma mente doentia”.

Mesmo assim, os atos repressivos não impediram ativistas radicais hindus de acabar com o parque Gandhi três dias depois do episódio, fazendo a lei com suas próprias mãos, batendo nos poucos casais que se atreveram voltar àquele local. No dia seguinte, o parque Gandhi estava quase vazio, não fossem os pássaros cantando nas árvores.

Dentre os jovens de Meerut, a ação policial provocou escândalo. Em entrevistas no campus do colégio local alguns dias depois, os estudantes disseram que são marcados pela polícia quando vistos com membros do sexo oposto. São separados, à base de cacetete, têm seus nomes e endereços anotados, e só são liberados depois de ter que darem dinheiro aos policiais.

“O crime está crescendo em Meerut a cada dia e a polícia fica atrás de meninos e meninas inocentes”, disse o pai de Sharma, Jagdish Kumar Sharma.”

DESAFIO: Valendo um papel com seu nome escrito em bengalês... Quem responder corretamente primeiro vence!

Qual o nome do político indiano que mandou fazer bonecos dele mesmo?

OM Shanti