17 de abril de 2006

Desabafo da Roberta


Namastê

Aqui vai o desabafo da Roberta em relação a India. Ela antecipou a passagem e foi embora, portanto não teremos mais a participação dela, esta é sua última postagem.

Aproveito para agradecer a Roberta por sua participação no Indi(a)gestão e para desejar-lhe tudo de bom em outros e novos horizontes! Obrigada Roberta!!!!! Obrigada pela latinha de 51, já tomei toda!!! :-)

OM Shanti

"Bem, ... vou para Londres no dia 10, como diz a reserva da minha passagem. Pode parecer pouco, mas pra mim os relógios daqui tem ponteiros pesados demais pra saírem do lugar. Estou na casa do Mr. Kulim, .... A Índia é um mundo diferente demais pra se sentir em casa, mesmo hospedada em uma casa com pessoas que conhecem bem os hábitos do ocidente (eles me dão ate papel higiênico!!!!). Essa hospitalidade incomparável faz parte do karma dos hindus. Há umditado em sânscrito que diz que os convidados são deuses. E assim somos tratados, de fato. Apesar de, na maioria das vezes, ser muito dócil comigo, o povo indiano é a sociedade mais individualista com que já tive contato. Esse individualismo se traduz, inclusive, na forma dos cultos aos deuses. nada acontece em grupo, não há reuniões para rezar em uníssono. É tudo entre vc e o seu deus. Os votos são sempre pra pedir riqueza, como ensinam os livros sagrados. E, para isso, vale toda e qq estratégia: morte, corrupção, seqüestro, o que preciso for.
Quem duvidar pode conferir os métodos aplicados por Krishna para vencer a batalha dos 100 anos. Foi assim que ele, entre muitos outros, ensinou. A sensação que se tem é que só quem tem dinheiro merece respeito.Vocês devem estar imaginando "como se fosse diferente no Brasil ou no resto do mundo". Mas, é. O status aqui tem um poder como em nenhum outro lugar. As pessoas que te tratam como deuses e se dispõem a fazer tudo o que vc quiser são as mesmas que empurram, xingam ou sabe-la-mais-o-que- fazem com quem pede dinheiro na rua. Num país com mais de 1 bilhão de habitantes, 82% segue a crença de que quem nasceu em uma família rica e pq foi bom na encarnação passada.Quem foi ruim, nasce pobre ou em forma de animal (menos vaca e cobra, pq esses são manifestações de alguns dos milhões de deuses que eles tem). O sistema de casta foi descrito em um dos 3 livros sagrados do hinduismo e desde então tem sido uma das maneiras mais cruéis e eficientes de se manter o status-quo. Apesar de não ser mais tão rígido como antigamente, o sistema de união dos clãs de mesmas posses continua imperando por aqui. Chega a ser engraçado ver os anúncios nos jornais. Eles tem classificados riquíssimos para pessoas que procuram seus pares. Sim, casamentos arranjados ainda são muito comuns. São combinados até internacionalmente, com indianos que moram na Inglaterra ou nos EUA, via Internet. A hipocrisia impera nos anúncios. Coisas do tipo "Garoto de pele clara, bem estudado, de família rica e influente na política procura garota bonita, de boa família e de boa educação (de preferência, com experiência internacional) que esteja disposta a se casar. Casta não importa". Uhun. E assim as famílias reais e milionárias conseguem permanecer por tantas gerações no topo da enorme pirâmide.
Aqueles que se apaixonarem perdidamente por alguém de outra casta pode ter tido a sorte de ter nascido em uma família um pouco mais moderna que aceite pequenos degraus de diferença (coisa rara, mas foi o caso dos meus amigos Narem e Kushboo. Ela e classe media alta. Ele, classe media. Obviamente, seria diferente se ele fosse classe media baixa. Mas, enfim…) É difícil pensar que um pais onde as tradições ainda regulam o andamento das coisas possa ser apontado como uma potência num futuro próximo. O dinheiro arrecadado com a exportação de tecnologia e reaplicado tão somente na própria industria e nas pessoas do ramo, o que aponta para uma ainda mais trágica diferença social. A infra-estrutura básica falta, inclusive, para a classe media, o que se traduz em milhões e milhões de pessoas com problemas de água encanada, energia elétrica, atendimento medico e afins, já que o numero de milhonarios por aqui gira em torno dos 61 mil. O mais inacreditável, porem, e que ate hj ainda existe um grupo maoista nos estado de Bihar e Jharkhand, os Naxalites. Galera punk-rock, que acredita ser possível instiuir o comunismo e fazer a reforma agraria e, para tanto, saqueia trens, bancos e cidades inteiras. Imagino por quantas horas duraria a lei do fim da propriedade privada entre toda essa gente. Chega a parecer piada… Posso mensurar o tamanho do desespero desses que ainda lutam por uma sociedade menos desigual (não vou entrar no mérito de se essa e a melhor opção ou não, não e isso que estou falando). Mas, se não aparecer um novo líder para mudar o rumo da situação, não sei o que será daqui e do resto do mundo. Alias, essa e uma das muitas contradições que ainda não consegui entender. To lendo um livro de um autor indiano que tem me ajudado a entender um pouco mais do comportamento contraditório dessa gente. Mas nem mesmo ele soube explicar como, num pais com essa mentalidade, pode nascer um líder como Gandhi. (Gandhi lia a bíblia e segui os ensinamentos cristãos). Tido como o pai da nação, Gandhi prega uma vida espartana, sem luxo nenhum (o que significa uma esteira pra dormir, dois pares de roupa e alguns livros. e só.) para que se possa nascer uma sociedade justa e igualitária, em que não haja segregações e que os considerados "intocáveis" tenham os mesmos direitos do mais rico dos ricos. Não da pra entender. Perguntei para alguns amigos daqui como isso se explica. Eles me disseram que as pessoas seguiam os ensinamentos do Gandhi pq ele era um dos únicos indianos que eram ouvidos pelos ingleses e, portanto, a pessoa mais indicada para conseguir a liberdade do pais. Mas isso não significa que eles seguiam todo e qq ensinamento.
Na verdade, os indianos seguiram mesmo o principio da não-violência, uma vez que eles eram metralhados qdo tentavam atacar os ingleses com espadas. O resto, apenas algumas pessoas seguiram. Tive a sorte de ter contato com elas. O legado vivo de Mahatma, a ONG que funciona no Ashram em que ele morou, chamada Manav Sadnah. Lá, todos são bem-vindos. Voluntários e contratados se revezam no movimento de desescolarização (ensinando crianças a ler e a escrever na calcada, enquanto elas pedem dinheiro na rua), nas escolas que ficam dentro das favelas ou no atendimento médico de emergência. Também há um centro de informática para quem quiser freqüentar, com aulas gratuitas todas as noites. Assim como Manav Sadnah, há outras instituições maravilhosas tb.Obviamente, não teria agüentado três meses por aqui se tudo fosse só egoísmo e injustiça. O problema é que vim esperando encontrar muito mais dessa gente. Um conselho a quem pretende vir a Índia algum dia: venha muito, muito bem preparado. Leia livros que vão além da vida de Gandhi, matérias que falem mais do que terremotos, acidentes de trem ou pessoas indicadas ao Nobel da Paz, converse com quem já veio pra cá. Isso, sem dúvida, foi um dos meus maiores erros. Comecei a fazer a pesquisa pouco antes de vir, mas ouvi tanta coisa ruim que preferi chegar sem preconceitos e ter minhas próprias impressões do lugar. Munida apenas do meu inglês meia-boca, cheguei de coração aberto e cheia de planos que não foram concretizados. Por ser uma sociedade com valores e princípios tão diferentes, é muito difícil saber o que se deve ser mudado, o que se deve ser respeitado e como aceitar o inevitável. Como uma criança descobrindo seu espaço, fiquei observando passivamente tudo o que acontecia e preferindo conselhos de quem esteve mais tempo por aqui a seguir meus próprios instintos. A Índia pra mim foi uma batalha perdida pq parto sabendo que poderia ter feito muito mais por muita gente, mas o medo de ultrapassar esses tênues limiares não me permitiu fazer nada. De qq forma, foi uma grande lição. Uma experiência singular que me ensinou e repassou lições antigas (as quais contava ter usado por aqui, mas…).
De qq forma, não me arrependo em nada de ter vindo. Mesmo. Se pudesse voltar no tempo, mudaria meu comportamento, mas não meu destino. A Índia tb me proporcionou momentos incríveis. Ver de perto o Taj Mahal foi algo impar. Tive a magia de realizar um sonho nascido numa aula de geografia do cursinho, seis anos atras, ao ver com meus próprios olhos o brilho de Jodhpur, a cidade azul. Fiz amigos que vão durar pra vida toda (fui convidada, inclusive, para ser uma espécie de madrinha do casamento da Kushboo e do Narem, em dezembro próximo). Encontrar a Sandra, minha amiga brasileira do Orkut que mora em Delhifoi o ponto mais alto da visita a capital indiana. Por um dia, integrei a marcha dos Friends without Borders, um grupo de estrangeiros que agora está no Paquistão, entregando as crianças do lado de lá da fronteira cartas de estudantes de escolas indianas, com mensagens de paz entre as nações. Vi chover no deserto de Thar, enquanto esperava para fazer um safari de camelo, tomando uísque com o figura que alugava os animais… E ainda tem tanta coisa que eu queria ver. Kerala, West Bengal e tantos outros lugares lindos. Já estou programando a minha volta para um-dia-quem-sabe. Agora, sei que fará muita diferença se vier pra ca acompanhada, principalmente de um homem. Ah, sim! Isso foi um outro problema por aqui. Aqueles que conhecem pouco o ocidente acreditam que as mulheres que vem pra ca estão atras dos ensinamentos do Kama Sutra. Afinal, que pai de boa família permitiria sua filha pura e virgem a cruzar os mares sozinhas? Ser vista como uma vagina cheirando a sexo me causou muitos problemas. Xinguei em inglês, português, hindi e usei todos os artifícios que poderiam ser ofensivos. Portanto, uma dica a quem quiser visitar o subcontinente: venha, pelo menos, acompanhada de um homem. Se possível, venha em grupo. Se não, passe pelo menos uma semana em cada cidade. Como já expliquei, os convidados são deuses. E qdo vc tem tempo de se tornar uma convidada, o relacionamento com as pessoas do lugar faz toda a diferença. Bom, queridos, essas são minhas impressões do pais onde, como disse o primeiro dos primeiros ministros indianos, Jawharlal Nehru, e um "pacote de contradições unidas por fios fortes, porem, invisíveis". Querer entende-lo e muda-lo, mesmo que um pouco, tvz tenha sido muita pretensão…. O mais irônico é que, para responder as questões que o oriente me despertou, ainda me valho da máxima/clichê dita no berço da filosofia ocidental. Mais do que nunca, só sei que nada sei.
Um beijo grande e um abraço apertado, com toda a minha saudade"
Roberta