2 de agosto de 2006

Medicina Indiana


Namastê
A reportagem abaixa NãO foi escrita por mim. Está na revista Época e trata do sistema indiano de medicina cujo nome é Ayurveda.

Mais uma lição da Índia

Por que o sistema de medicina aiurvédica conquista cada vez mais espaço com público e cientistas do Ocidente
Por: Tânia Nogueira

CONTRA A TENSÃO Felipe Saigh faz o çirodhara, terapia que estimula o ponto energético entre as sobrancelhas e ajuda a recuperar as forças perdidas na quimioterapia
Quando descobriu um câncer no intestino, aos 40 anos, o administrador de empresas paulistano Felipe Saigh nem pensou em apelar para terapias alternativas. Passados dois anos e meio do diagnóstico inicial, Saigh continua fazendo quimioterapia. Mas se trata também com a medicina aiurvédica, tradicional sistema indiano. E diz estar se sentindo melhor. No caminho entre o ceticismo e a confiança naquilo que não é explicado pela ciência ocidental, Saigh passou por cirurgias, quimioterapia com efeitos colaterais terríveis, reincidências da doença e prognósticos nada animadores. "Quando meu médico não tinha mais nada a fazer, me receitou um chá", diz Saigh. "O tumor parou de crescer, e isso abriu minha cabeça." Já fazia acupuntura, começou a ter aulas de ioga. Partiu para o tratamento aiurvédico. "A quimioterapia não me deixa tão prostrado", afirma.

A medicina indiana conhecida como aiurveda ganha cada vez mais popularidade no Ocidente. Nos Estados Unidos e na Europa, não faltam spas e clínicas particulares oferecendo massagens e tratamentos. Entre os pacientes, astros como Demi Moore e Sting ajudam a divulgar a idéia. O sucesso do guru Deepak Chopra, um dos maiores divulgadores da aiurveda, comprova o interesse do público: os 35 livros escritos pelo médico indiano radicado nos Estados Unidos foram traduzidos para 35 idiomas e venderam mais de 20 milhões de exemplares.

Aiurveda é um termo que, em sânscrito, significa "conhecimento da vida". Trata-se de um conjunto de técnicas médicas voltadas para a prevenção, cuja proposta é ensinar o paciente a levar uma vida equilibrada. O tratamento visa cuidar do corpo como um todo, não apenas da parte afetada pela doença. A farmacêutica paulista Stella Kirkelisbingre, de 55 anos, procurou o médico César Devesa, pesquisador do Instituto do Coração, em São Paulo, e especialista em aiurveda, para se livrar de um inchaço. Mas diz que acabou se curando também de uma enxaqueca que a perseguia havia anos. "Depois do tratamento, nunca mais tive uma crise", afirma Stella.

Como na medicina chinesa, a principal idéia do sistema indiano é manter o ser vivo em harmonia com o cosmo. Para os aiurvédicos, pessoas e coisas dividem-se em três tipos, conhecidos como doshas (veja o quadro nesta matéria). Apesar de cada indivíduo ter um ou dois doshas predominantes, dizem os aiurvédicos, todos têm um pouco dos três dentro de si. A doença, segundo eles, surge quando a relação natural entre esses doshas entra em desequilíbrio.

No corpo, segundo os escritos aiurvédicos, há canais e pontos de energia semelhantes aos da acupuntura, chamados marmas. Terapias como massagens e fios de óleo procuram restabelecer o fluxo de energia do corpo por estimulação de alguns desses pontos. A medicina aiurvédica também presta atenção à dieta do paciente. A maior parte dos médicos que adotam técnicas aiurvédicas milenares não dispensa conhecimentos ocidentais e recursos tecnológicos modernos. "Faço o diagnóstico pelo pulso, observando, olhando a língua e conversando com o paciente", diz Devesa. "Mas, se necessário, peço exames de laboratório para confirmar o quadro."

No Brasil, a prática aiurvédica chegou primeiro às camadas populares. Há 18 anos, o Hospital de Medicina Alternativa de Goiânia faz tratamentos fitoterápicos de medicina aiurvédica, pagos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Nos últimos tempos, a medicina indiana tem sido adotada por uma clientela disposta a investir em saúde. Em 1998, quando a professora Márcia De Luca, aluna do próprio Chopra, abriu o Centro Integrado de Yoga, Meditação e Ayurveda (Ciymam), em São Paulo, a procura pelas terapias indianas era tão pequena que ela teve de vender o carro para pagar as contas. Hoje, dirige um espaço de 300 metros quadrados, onde mais de 500 pacientes receberam tratamentos aiurvédicos nos últimos anos.

O sucesso da medicina aiurvédica pode ser explicado por um motivo simples: o meio científico ocidental começou a aceitar e a comprovar a eficácia de práticas medicinais indianas de mais de 5 mil anos. Um exemplo é o chá tomado por Felipe Saigh para tratar o câncer. É um remédio à base de cúrcuma longa, ou açafrão, tempero usado tradicionalmente na Índia e na China para prevenir e tratar de câncer. Quem receitou o chá foi o médico Antônio Carlos Buzaid, diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, um dos melhores do país. "Tenho testado em pacientes para os quais a medicina convencional não apresenta mais saída", diz Buzaid.

Para experimentar a cúrcuma longa, Buzaid se respaldou em pesquisas realizadas pelo M.D. Anderson Cancer Center, em Houston, no Texas. O centro americano é referência mundial em oncologia. Um dos estudos, feito com ratos, mostra que a curcumina, substância presente no açafrão, ajuda a evitar metástase do câncer de mama para o pulmão. "Temos de garantir a segurança das formulações", diz o médico Paulo de Tarso Lima, especialista em medicina integrativa, uma tentativa de aliar as modernas técnicas ocidentais aos tratamentos alternativos. "As pessoas compram remédios importados com o nome de uma erva qualquer. Qual a garantia de que a erva está mesmo na fórmula?" Uma pesquisa recente publicada no Journal of the American Medical Association mostrou que, em 20% dos remédios vendidos como aiurvédicos nos Estados Unidos, havia metais pesados nocivos à saúde.

Na Índia, os médicos costumam cursar faculdade de medicina aiurvédica e fazem até residência. E aprendem também a medicina ocidental. "Nas universidades de lá, há pesquisas sérias para comprovar a eficiência das práticas", diz o médico mineiro José Ruguê Ribeiro Júnior, especialista em medicina intensiva, cujo currículo inclui um curso de aiurvédica na universidade indiana de Puna. Ruguê é diretor do Ashram Suddha Sabha, fundação de Uberlândia que pesquisa a adaptação de ervas medicinais. Para ele, várias práticas indianas ainda permanecem sem comprovação científica por falta de financiamento para pesquisas. "É uma questão de prioridade", diz Flávio Dantas, professor de Homeopatia na Unifesp, em São Paulo. Dantas afirma que é preferível investir na pesquisa sobre as tradições medicinais brasileiras. Mas, a julgar pelo sucesso da medicina aiurvédica, também nesse campo a Índia está ganhando a corrida do Brasil.

Colaboração: Marta Unter

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EDG74910-6014,00.html

Incredible India! (slogan oficial do governo indiano)

Om Shanti