27 de fevereiro de 2007

A Arte de Anish Kapoor


Nâmaskar

Segue abaixo mais uma colaboração da nossa querida Liliana Sousa.

A recriação do mundo

A obra monumental do indiano Anish Kapoor
é tema de uma mostra de sucesso no Brasil.
E que não deixa duvida: a grandeza da arte
contemporanea passa por seu nome


Marcelo Marthe

Anish Kapoor é um artista que pensa grande. Também pensa colorido, pensa translúcido, pensa refletivo, pensa esfumaçado e – o que é quase um anátema na arte contemporânea – pensa belo. O resultado disso tudo se traduz em filas. A mostra Ascension (Ascensão), que estreou recentemente em São Paulo, é o maior sucesso das artes plásticas no Brasil nos últimos tempos.

No Rio de Janeiro, onde foi inaugurada em julho passado, atraiu mais de 400 000 visitantes. Em Brasília, sua parada seguinte, foram outros 50 000 espectadores. Números tão retumbantes (ainda que se expliquem também pelo acesso gratuito às filiais do Centro Cultural Banco do Brasil, o CCBB, onde se realiza) só costumam ser alcançados por exposições dedicadas a monstros consagrados, como a do escultor francês Auguste Rodin (1840-1917), nos anos 90.

Bem mais difícil é ver longas filas para conferir uma mostra de arte contemporânea. Anish Kapoor tem apelo público não porque seja "fácil" ou faça concessões ao gosto não lapidado das massas – embora ele entenda perfeitamente o que causa impacto –, mas porque tem qualidades que distinguem as obras de arte em qualquer lugar ou qualquer tempo. Suas esculturas e instalações, não raro de proporções monumentais, levam o espectador a ver o mundo por ângulos inusitados e lhe proporcionam uma experiência metafísica. Dão-se as costas a elas com a sensação de que se ganhou algo, em termos estéticos, sensoriais ou até existenciais. Um exemplo é a obra que dá mote à mostra brasileira.

Ascension
consiste numa coluna de fumaça que se desprende do chão e se eleva até o teto – um conjunto que causou impacto no CCBB carioca com seus 36 metros de altura (reduzidos para 8 em São Paulo por questão de espaço). "Trabalhos em grande escala produzem um efeito de admiração e assombro. É essa sensação que persigo em meu trabalho", disse Kapoor a VEJA, durante uma passagem por São Paulo.

Apesar das reflexões complicadas que Kapoor provoca, seu apelo popular é facilitado pelo uso de formas elementares e intuitivas. A concha de bronze de 4,5 metros de comprimento que se encontra no hall de entrada do CCBB paulistano sugere um órgão sexual feminino, imantado simultaneamente de materialidade e de pureza. Marsyas, a imensa estrutura de aço e PVC vermelho com que Kapoor ocupou em 2002 o vão central da galeria Tate Modern, em Londres, lembra duas trompas de Falópio ligadas a um útero.

O artista lida ainda com um ingrediente imediatamente acessível: a ilusão visual. Assim como os velhos mestres da pintura, Kapoor maneja formas e materiais de maneira a provocar vertigem no espectador e pôr em xeque suas noções de tempo e espaço.

Aos 52 anos, casado, uma filha de 11 e um menino de 10, inclui entre seus amigos o roqueiro Mick Jagger e o escritor Salman Rushdie. O incentivo do cantor dos Rolling Stones, aliás, foi decisivo para a realização de sua mostra no Brasil – impressionado com a presença de 1,5 milhão de pessoas num show que fez na Praia de Copacabana, Jagger teria dito a Kapoor que ele não deveria subestimar o público do país.

Quanto ao dinheiro, o artista é um pragmático. Para ele, fazer obras pensando apenas em satisfazer o mercado é um pecado mortal. "Mas, fora isso, não existe nada de errado em faturar um pouquinho", brinca Kapoor, que há pouco vendeu um trabalho por 2,2 milhões de dólares. A recriação do mundo, evidentemente, tem seu preço.

OM Shanti

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