15 de maio de 2007

João na Caxemira







Namastê

Hoje temos o interessante e importante depoimento do João, um brasileiro, piloto de helicóptero que teve a oportunidade de conhecer a bela e conturbada região da Caxemira; zona de conflito e disputa entra a Índia e o Paquistão.

Fala moçada, tudo bem?

Continuo bem graças a Deus, aprendendo todos os dias e respeitando cada vez mais a aviação, essa profissão que foi uma das opções mais certa que fiz na vida.

Estou fazendo uma missão em Amarnath, levando peregrinos para visitar uma caverna sagrada onde o Lord Shiva meditava. No inverno existe uma formação de gelo que simboliza a fecundação da humanidade (linga), e que por milhares de anos as pessoas arriscam a vida fazendo uma escalada num percurso perigoso de 14km de 9.000 a 12.000ft, o caminho é assustador, todo o sacrifício para receber a benção deste local, a fé e toda a energia envolvida neste local fica realmente difícil de descrever, posso tentar resumir como um lugar de grande energia para aqueles que conseguirem manter a mente aberta para perceber.

A região é simplesmente linda, realmente é uma amostra do que poderia ser o terraço do paraíso, são montanhas altíssimas com topos de neve decoradas com pinheiros e rochas esculpidas que despertam a nossa imaginação com suas formas, cachoeiras com túneis de gelo, rios azulados com forte correnteza e cheios de pedras, tudo isto cercado por um verde perfeito da grama de Kashmir, a impressão que se tem aqui é que você está dentro de um quadro, aliás uma obra prima!

Tecnicamente falando decolo de 9.000ft e pouso a 12.000ft em um heliponto elevado de 10X10 metros, a rampa de aproximação é a mesma da decolagem pois o heliponto fica no fim de um vale cercado por paredes de 2.000ft, ou seja não tem arremetida e tem que tomar o máximo cuidado com o vento pois as vezes a direção do vento é de cauda o que me custa todo o suor pra colocar o helicóptero de lado torcendo o bixinho pra pouso, o percurso dura 7 minutos sendo que os 3 primeiros subo a 1.000ft/min, vôo contornando as montanhas dentro de um vale estreito até chegar a caverna, a volta é uma delícia, venho surfando entre os vales, como dizem descer é mais fácil que subir. Divido o espaço com mais 4 helicópteros sendo 2 Bell 407 e 2 Lama, somos controlados por uma base militar e usamos a fônia o tempo todo dando os reportes de posição, agora o engraçado é sentir o 407 fraco, sem potência, parece um Jetinho com 5 a bordo, pouso e decolo com a MGT 760C, 770C a máxima é 779C, de vez em quando esbarro 781C e pisca a Check Instr, chega a doer o coração, é quando a temperatura externa começou a subir ou o vento mudou de posição, então é hora de diminuir um pax, até consumir combustível suficiente, cada grau aqui faz diferença, o marcador da OAT é um instrumento muito importante nesta região, vôo com o relógio selecionado na temperatura externa, a melhor hora para voar é de manhã bem cedinho das 06:30 até 12:30 depois disso até umas 14:30 a temperatura já chega por volta de 15C à 19C impressionantemente já enfrentei dias de 25 C, ou seja Altitude Densidade de 15.400 ft, quando a temperatura aumenta desta forma a turbulência chega a ser assustadora, chaaaqualha... Agora falando fisicamente voar em altas atitudes cansa muito, a falta de oxigênio pela exposição de longo tempo nesta altura faz uma diferença considerável, tem que estar bem preparado, consumo 10 litros de oxigênio por dia para não ter nenhum problema, tenho tomado todos os cuidados possíveis pois estou mais uma vez voando muito. Completei 112 horas em 30 dias, sendo que as primeiras 90 foram em 19 dias, o contrato é de 225 horas para 60 dias.

Infelizmente toda esta aventura tem o acréscimo dos problemas políticos desta região, como dizem não se pode ter tudo ao mesmo tempo. Kashmir é uma região com problema de terrorismo, o exército esta em peso nas ruas, todas as esquinas possuem barricadas e carros blindados, soldados com metralhadoras controlando as ruas pois a cidade faz fronteira com o Paquistão e este país faz todas as pressões possíveis para tomar posse deste paraíso, semanalmente temos problemas de explosões e tiroteios, hoje por exemplo uma boa parte da cidade ficou fechada porque explodiram um mercado aqui, e estavam tendo tiroteio no caminho, tivemos que desviar quando estávamos voltando do aeroporto, a minha esposa disse que deu para ouvir as bombas do hotel, é a terceira vez em um mês que passo por isto, é realmente uma pena o cotidiano desta cidade e o turismo poderia ser melhor explorado se não fossem estes conflitos, não tenho nada contra muçulmanos, mas o fanatismo é imperdoável. Ficamos sempre no hotel onde possui uma grande segurança, fizemos alguns passeios, mas evitamos de ficar nos expondo.

Bom este é mais um relato desta emocionante aventura neste país incrível, gostaria de agradecer todos aqueles que me ajudaram a estar aqui e mandar um abraço forte para todos os amigos. Queria que vocês compartilhassem desta fase que tenho aproveitado tanto e aproveito pra dizer que estou com muitas saudades, e que um dia com certeza vou poder tomar um choppinho com cada um de vocês e dividir nossas experiências, desejo também que este dia não demore muito.

Fiquem com Deus.

Jony.

FOTOS: Entrada da caverna Amarnath, Shiva linga (dentro da caverna) e João com o helicóptero.

Quero agradecer ao João por este relato que embora seja um pouco técnico, é fantástico!!!!!!!!! Muito obrigada Jony !

INCREDIBLE INDIA!

Om Shanti