21 de fevereiro de 2008

Ibira na India - Parte 4

Hoje meu relato nao tera nada de "primeiras experiencias" e situacoes engracadas. Apenas irei expor um pouco do que pude ver em mais um dia de Incredible India, como diz a Sandra.

Ainda no primeiro dia na vila de Parshuram o meu amigo havia comentado que a India, alem das milhoes manifestacoes de Deus, tambem tem mais outras milhares de linhas filosoficas que tenatm explicar a vida do ponto de vista racional/cientifico. Ele resolveu nos levar, entao, a um casal que estava la para disseminar a filosofia do Agnihotra. Ele disse que pela vila ter um relativo fluxo de turismo, muitas pessoas desse tipo vao ficar um tempo por la. Bom, encontramos com o casal, como eles pediram, as 18:36. Era a hora exata em que o sol se poria naquele dia. Nessa hora um ritual eh realizado, com o mais absoluto silencio, em que umas plaquinhas de algum material inflamavel sao corretamente dispostas em um objeto que, segundo eles, eh uma piramide invertida, e enfim tudo eh queimado ao som de mantras. Eles dizem que a pratica diaria deste ritual - ao nascer e por do sol - purifica a pessoa e os ambientes, pois, de forma simplificada, a veneracao do fogo pode proporcionar o nosso retorno a forca primordial. E para dar a essa filosofia um carater cientifico, eles fazem testes por exemplo com a agricultura, em que uma plantacao que recebe a Agnihotra tem melhor desempenho que a que nao recebe o ritual. Enfim, verdadeiro ou nao, meu amigo mais uma vez deu-me a oportunidade de conhecer mais uma faceta da India. E eh importante dizer que a India REALMENTE tem muitas filosofias acontecendo ao mesmo tempo, seja ajudando-se entre si, seja falando extremamente mal uma da outra. Essa eh a India.

No dia seguinte meu amigo nos levou pra conhecermos a escola privada que existe ali do lado da vila. A escola eh excelente, mas o que mais me chamou a atencao foi ver as criancas todas juntas no ginasio cantando os mantras da manha. Nao quero fazer julgamentos sobre isso, mas o que gostei foi de ver como as criancas cantavam bem e como elas pareciam felizes fazendo aquilo. Depois disso foram todas para suas respectivas classes. Conversamos um pouco com alguns professores que meu amigo apresentou, tomamos o famoso cha, e fomos embora.

Naquela tarde fomos as montanhas. Nos acompanharam uma professora da escola particular e dois meninos da vila. Nessa epoca do ano tudo esta muito seco pois nao chove desde as ultimas moncoes, em outubro/novembro, mas nos contaram que durante a epoca de chuva tudo eh extremamente verde, com rios e cachoeiras. Eh isso que da fama tambem ao lugar e atrai turistas que buscam pelo que no Brasil chamamos de ecoturismo. Quando estavamos no topo da montanha paramos pra descansar. Um dos meninos, de 16 anos, havia trazido uma flauta e comecou a tocar. Poucos minutos depois um veado (animal) passou correndo entre nos, o que nos disseram ser a coisa mais rara de acontecer, pois restam pouquissimos na regiao. Nao deu nem pra tirar foto.

Depois prosseguimos pela montanha e chegamos nas ruinas de um pequenino templo de Shiva perdido no tempo. Mais a frente havia umas minusculas cavernas escavadas em rochas no chao, grandes o suficiente apenas para ficar sentado dentro delas. Em cada uma havia um espacozinho para um altar, mas ja nao havia estatuas de deuses ali. Disseram-nos que os arqueologos supoem que aquelas cavernas possam ser do tempo dos Pandavas, ou seja, mais de 5000 anos, mas ninguem sabe ao certo. Na India eh extremamente comum voce andar e topar com alguma coisa que talvez seja milenar do tempo das grandes escrituras sagradas indianas - inclusive com lendas dizendo terem sido criadas pelos proprios deuses da mitologia - mas sem absolutamente nenhuma conservacao ou algo do genero. O que dizer do que certamente deve estar ainda escondido debaixo da terra?

Fechamos esse dia com a visita ao hotel que tem um pouco afastado da vila. Eh um hotel que recebe principalmente os turistas indianos ricos que vao para a regiao (tem ate heliponto). O hotel eh realmente muito bom, com tendas para massagem, piscina, sauna, restaurante chique e quartos completamente e indiscutivelmente confortaveis. O preco? O mais simples 3500 rupias. E quanto eu paguei em Mumbai no meu primeiro dia assustador? Quase 3000 rupias. Eu disse que diria o que poderia ter tido com esse preco e estou dizendo agora. Quando vi o hotel e seu luxo e conforto fiquei me chamando de idiota por algum tempo. Mas tudo bem, vale a maxima "vivendo e aprendendo".

A noite levamos minha amiga brasileira a estacao de trem pois ela voltaria ao Brasil no dia seguinte. O dia seguinte, por sinal, era meu aniversario, 5 de fevereiro. Meu amigo e a mae dele apenas me deram parabens, nada de especial. O especial desse dia eh que teriamos que sair de Parshuram para ir a Ashta, perto de Kolhapur, mais ao sul do estado de Maharashtra, ja bem pertinho de Goa. La fica a universidade do meu amigo e tinhamos que ir pra la e ficar la. Entao logo depois do almoco partimos, de onibus local do governo, e chegamos a noite.

Deixe-me so explicar como funciona essa historia do onibus. Na India viaja-se demais e cada estado tem sua companhia estadual de transportes. Entao, seja la onde voce estiver dentro de um mesmo estado, todos os onibus serao absolutamente iguais, seja nas cidades, seja entre cidades. No Maharashtra os onibus sao de metal (digo isso pois vim a saber que em alguns lugares sao de madeira), nao tao confortaveis, sao apertados para pessoas como eu de 1,87m de altura, sentam duas pessoas de um lado e tres do outro, ha pouco espaco para andar no meio e a porta abre com trinco igual de porta de casa. E como em tudo na India, voce primeiro entra, depois espera o condutor (eh assim mesmo que chama) passar para poder pagar e receber seu tiquete.

Agora comeca outra parte importante das minhas aventuras na India que deixarei, de novo, pro(s) proximo(s) relato(s), claro.

Om Shanti Om