26 de março de 2008

Ibira na India - Parte 11

(Na vila de Fatehpur, quando errei o caminho para o terminal de onibus)

(Taj Mahal, no meu unico dia nublado de India)

(Vista da casa do meu amigo Roni)

Bom, como disse, nesse relato descreverei mais detalhadamente algumas outras experiencias que tive durante a minha estada na capital indiana. Eu cheguei em Nova Delhi no dia 17 de fevereiro, e minha estada na capital terminara na proxima segunda-feira, dia 31 de marco. Ou seja, terei ficado um mes e meio nessa cidade, tempo suficiente para visitar quase todos os lugares (que sao muitos por aqui), mas, principalmente, tempo excelente pra conhecer distancias, precos, facilidades etc... como havia dito no outro relato, acabei pegando "as manha".

Enfim, deixe-me comecar pelo meu amigo Rohnit, mais conhecido por Roni. O Roni mora aqui em Delhi, mas em um bairro comum periferico, classe media baixa, mais pra baixa, e me convidou pra ir visita-lo em sua casa. Ele, muito educado, veio buscar-me no local em que eu estava hospedado e me levou ate seu bairro. Passei o dia com ele e sua familia, ate que, a noite, fui convidado para dormir la. Pensei: "Oba, vida indiana de novo!". E pensei mais um pouquinho: "Coco no buraco, limpar-se com a mao, comida indiana sem talher e mais um monte de outros detalhes..."... hhmmm, aceitei o convite, claro. Isso ainda era uma quinta-feira e acabei ficando na casa dele ate o domingo daquela semana, fazendo tudo de novo que uma verdadeira vida indiana recomenda. Mas a experiencia de vida indiana na capital eh um pouco diferente. Embora eles nao sejam de familia rica, nada disso, viver na capital, moderna, exemplar, faz a diferenca. Logo no primeiro dia fomos ao cinema e pegamos metro. Foi a primeira vez que usei metro e fui ao cinema na India. O metro eh absolutamente excelente, absolutamente. Mas claro, fui revistado na entrada, como todos devem ser, alem de ter sido revistado na entrada do cinema. La no cinema, alias, o policial ainda me pediu para ligar minha maquina fotografica e tirar uma foto pra provar que minha maquina fosse realmente uma maquina. Mas tambem, se fosse uma arma eu teria matado meu amigo, coitado, que estava bem na minha frente. Enfim, era apenas uma maquina fotografica.

Nos outros dias, todos os dias no final da tarde, o Roni ia na academia com seu primo, mas eu preferia ficar na casa dele. Os jovens da minha idade, principalmente das cidades grandes, estao todos indo na academia desde que os atores de Bollywood comecaram a aparecer gostosoes e sem blusa nos filmes nacionais. E tambem gracas ao filmes (mas claro, nao somente) as meninas indianas das grandes cidades tambem estao comecando a mudar o comportamento - e em alguns casos ate demais! A propria irma do Roni, por exemplo, pediu para tirar uma foto comigo, quando fomos ao cinema, e na hora da foto ela colocou as maos nos meus ombros! Foi uma grande surpresa pra mim, ja que as meninas indianas que tinha conhecido ate entao mal chegavam perto... e fora que ela vestia uma roupa plenamente ocidental, como grande parte das meninas de Delhi.

Bom, aproveitando o assunto, outro susto que levei em Delhi foi em relacao aos casais novos, de namorados. Os monumentos aqui na capital costumam ser em grandes areas, tipo parque, com gramados etc. Por conta disso, acabei vendo em todos esses lugares diversos casais de jovens sentados aos pes de arvores, o que era muito dificil de ver nos outros lugares que eu estava na India. Mais susto ainda levei quando vi alguns casais inclusive se beijando (o famoso selinho, claro, passar disso ja eh demais tambem...). Mas devo ressaltar que isso ainda so ocorre nesses locais, parques e monumentos, nao nas ruas e outros espacos publicos. Alias, muitos desses monumentos historicos de Nova Delhi foram apresentados para mim por uma nova amiga que fiz, indiana, que fala portugues. E fala um portugues incrivelmente bem, sem sotaque, alem de ela ser tambem dessa nova geracao de indianos ocidentalizados.

Agora deixe-me contar minha experiencia em Agra, onde fica o Taj Mahal... decidi que ia pra la de trem e nao fiz reserva, pois nessa epoca do ano a procura ja nao eh tao grande. Enfim, logo cedo, as seis e meia da manha, fui pra estacao e pedi o bilhete pra Agra no guiche. O moco falou que era 64 rupias (3 reais, mais ou menos), o que achei muito estranho, ja que Agra fica a 200km da capital. Pensei que pudesse ser o ticket do "general coach", o vagao economico, sem lugar marcado, sem conforto, sem ar condiconado, sem nada, onde so vai o povao. Pensei, pensei, pensei... e aceitei comprar esse ticket. Coitado de mim. Fui pra plataforma e nao tinha a menor ideia de onde parava esse tal general coach. O trem atrasou duas horas e, quando chegou, o vagao que eu deveria entrar estava bem longe de mim. Quando cheguei nele, coitado de mim de novo, ja nao havia mais absolutamente lugar nenhum, nem pra sentar e nem pra ficar em pe. Fui pro vagao do lado, de lugares marcados, e fiquei em pe, perto da passagem pro meu vagao (na India da pra passar de vagao pra vagao por dentro do trem). Depois de o trem comecar a andar passou o cara que confere os tickets. Na hora de ele conferir o meu, ele viu que eu estava no vagao errado e mandou eu ir pro outro; eu retruquei dizendo que nao havia absolutamente espaco nenhum pra mim, mas ele nao teve do e disse "va!". Eu simplesmente fui ate a passagem entre os dois vagoes, no maximo que pude ir, peguei uma folha de jornal da minha mochila, pus no chao, e sentei. Resumindo, fui pra Agra sentado no chao entre dois vagoes, durante cinco horas. E nao pensem que os indianos que estavam no vagao de lugares marcados gostaram disso. Eles tiveram do de mim, pediram que eu fosse sentar la com eles, que eu era estrangeiro, e estrangeiro na India eh como Deus, que isso que aquilo, mas eu nao podia fazer nada, havia pago apenas 3 reais...

Quando cheguei em Agra fui ver o Taj Mahal, logico. Qual nao foi minha surpresa (alem de ter de pagar injustas 750 rupias, ou mais de 35 reais) quando me comecam a cair gotas do ceu. Desde que estava na India eu mal tinha visto nuvens, e de repente, no dia de ver uma das novas sete maravilhas do mundo, o ceu me resolve chover. Mas por sorte nao passou de um chuvisco e pude ver o Taj. Mas o que mais gostei da viagem para Agra foi ter ido a Fatehpur Sikri, 40km dali, um complexo de palacios, simples ate, mas extremamente bem conservados em uma area relativamente grande, onde um dia foi a capital do rei Akbar, por meros doze anos, antes de ele se transferir para Agra.

De Fatehpur Sikri eu queria ir para Mathura, a cidade de nascimento do deus Krishna, e resolvi fazer o que nao esperava fazer: pegar onibus local, onde so tem coisa escrita em Hindi, e estrangeiro raramente tem coragem de fazer. Os onibus saiam da vila local, extremamente pobre, e era apenas descer ate ela e virar no terminal de onibus. E quem disse que eu virei pro lado certo? Virei pro lado errado e me meti nas ruazinhas apertadas e lotadas de moscas das tipicas vilas antigas da India. Andei quase dois quilometros, ainda achando que o lado era certo; e em cada lojinha eu ouvia um “hello!” pra mim. Acabei perguntando pra um menininho onde era a parada de onibus, e ai que ele me disse que era pro outro lado. Voltei tudo e encontrei o terminal, quando descobri que la nao parava o onibus que eu precisava. Fui ate o local certo e depois de um tempo passou o onibus e entrei. Tive que descer em outra cidade pra trocar de onibus, ate que, finalmente, acabei chegando em Mathura. Pegar onibus local sozinho ate que nao foi tao dificil; pedindo ajuda pras pessoas certas funcionou direitinho. E ainda, depois de ver a cidade de Krishna, voltei para Delhi de novo de onibus local, pagando o equivalente a 4 reais, para percorrer de novo 200 km.

Minhas experiencias mais relevantes em Delhi encerram-se por aqui. Semana que vem partirei para ver os pes do Himalaia e nao sei se conseguirei mandar relato tao rapido. Mas assim que puder mandarei minhas experiencias dessa terceira etapa de minha viagem, nos meus ultimos 15 dias de India.

Om Shanti Om