3 de março de 2008

Ibira na India - Parte 5




No meu ultimo relato eu havia dito que tinhamos ido pra Ashta, perto de Kolhapur, no sul do estado do Maharashtra, onde meu amigo estuda. Ah sim, me dei conta que eu nao disse o nome do meu amigo ate agora; o nome dele eh Sankalp. Pois bem, e era tambem meu aniversario, como disse. Chegamos na cidade a noite, entao nao pude ver nada direito. Para ajudar um pouquinho estava sem luz e ela so voltaria as 20:30 (para os que nao sabem, em todo e qualquer lugar da India ha cortes de energia repentinos e diarios; as vezes os cortes sao premeditados, com hora marcada, como foi o caso desse dia). Meu amigo mora num tipo de republica com outros cinco meninos da mesma idade (em torno de 20 e poucos anos) que estavam la, mas nao pude ve-los pela falta de luz. Logo saimos pra jantar com mais tres dos amigos de meu amigo e a refeicao proposta foi comida chinesa, o que aceitei de pronto pra dar uma mudada no cardapio. Quem dera... antes indiano soubesse mudar o cardapio; a comida chinesa nao passava de uma tentativa de macarrao chines com todos os temperos indianos possiveis...

Enfim, voltamos pra casa e, antes de chegar, vi que a luz tinha voltado. Pra que. Quando entramos em casa havia cerca de 20 indianos e um bolo esperando por mim. So nao tinha mais gente la porque acho que nao cabia, mesmo. Todos se avisaram por celular que um estrangeiro estava chegando e que era aniversario dele e, se indiano ja eh curioso ao extremo, imagine isso num lugar que nunca vai estrangeiros. E eu simplesmente morrendo de vergonha. Cantaram parabens pra mim e, no fim, a dona da casa (uma senhora, que tambem mora la) apareceu e me abencoou colocando um tilak na minha testa. Apos isso o bolo foi repartido e dividido entre todos e, depois de comerem e matarem a curiosidade sobre mim, os que nao eram daquela casa foram embora.

No dia seguinte tive a oportunidade de conhecer uma coisa bem interessante e tradicional da India. Nos tivemos que ir a Kolhapur, a 30km dali, onde estaria acontecendo o Stance 2008 na Shivaji University, a melhor da regiao. Esse evento nao acontece so ali, mas em toda a India, em varios lugares, em varios momentos, em varias escalas. Trata-se de uma especie de competicao entre os alunos, basicamente de conhecimentos gerais e performance individual. Os meninos foram participar e eu fui assistir. Mais uma vez me surpreendi positivamente com a estrutura montada que, embora com materiais simples, era muito bonita. E eu, mais uma vez um estrangeiro em lugar inusitado, fui outra vez um ET. E na hora do almoco, por exemplo, na tenda coletiva, queriam dar lugar na fila para mim como se eu fosse um deus, o que eu recusava veementemente, pois nao so nao queria privilegios como nao iria me separar de meus amigos, claro.

O Stance prosseguiu ate o dia seguinte, quando teve a premiacao. Embora a equipe dos meninos nao tenha ganho nada nas premiacoes gerais por equipe, o premio mais importante do evento - que considera o melhor desempenho individual somado a um ultimo desafio em que so tres pessoas participam - foi dado ao Sankalp. No ultimo desafio cada um dos tres finalistas individuais teve que falar sobre um mesmo tema por 15 minutos seguidos, sem que cada um ouvisse a explanacao do outro. O tema deles foi o mais novo lancamento automobilistico da India, o Tata Nano. E de fato Sankalp deu de 10 nos outros dois.

No dia seguinte, uma sexta-feira, estavamos de volta a Ashta e finalmente conheceria a faculdade de Sankalp. Como toda a universidade da India, o predio mais importante dali eh o da Engenharia, seguido pelo de Medicina Ayurvedica, que conta com um hospital, e o da Pedagogia. So ha essas tres faculdades ali. Bom, entrei pra conhecer o predio deles, da Engenharia, e me surpreendi negativamente e positivamente ao mesmo tempo. Por um lado, gostei de ver que eles possuem bastantes e modernos equipamentos, mas por outro lado, achei bem estranha toda a maneira com que as coisas sao dispostas ali. A verdade eh que naquele momento ainda nao conhecia a India direito, entao nao sabia ao certo que realmente a conservacao das coisas nao eh prioridade e nem tudo para eles precisa ser novo e confortavel. As salas de aula, por exemplo, sao lotadas; nao ha nem espaco para escrever no caderno, por exemplo, pois as carteiras ficam coladas umas nas outras e os alunos mais colados ainda entre si. Uma hora a luz acabou e o gerador ligou; o problema eh que o gerador ficava do lado da sala de aula, impedindo de ouvir o professor. Mais problema ainda eh que ninguem ligou pra isso e a aula prosseguiu, o que me leva a crer que ou ninguem ta ligando pra aula ou que eles ouvem melhor do que eu. Outro fato importante - mas que depois soube nao ser assim em todos os lugares - eh que, por ordens superiores, meninos ficam de um lado e as meninas de outro, alem de haver uniforme obrigatorio.

Depois de conhecer as instalacoes da universidade, fomos almocar na cantina. Enquanto estava la um homem veio conversar com meus amigos. Fiquei sabendo que ele queria saber quem era eu, de onde vinha, porque estava ali etc, e soube tambem que ele era medico do hospital ayurvedico dali. Me convidou, entao, para conhecer todo o hospital apos o almoco, o que fiz, claro. Assim que entrei la quase tropecei com mulheres pobres almocando no chao e o medico me explicou que o hospital nao so oferece almoco para elas como tambem oferece alguns tratamentos ayurvedicos para os alunos treinarem. Apos toda a visita ele quis me oferecer uma shirodhara, aplicacao de oleo ayurvedico quente na testa. Aceitei, claro. Meus amigos estavam acompnhando a visita e acompnharam a shirodhara, tambem. Qual nao foi minha surpresa quando ouvi barulhos de maquina fotografica (eu estava com os olhos vendados durante a aplicacao) e fiquei sabendo que havia uma fotografa que a universidade havia chamado por qualquer motivo, e o hospital havia prontamente aproveitado para tirar fotos do primeiro estrangeiro a pisar ali. Quando a aplicacao terminou ainda tive que posar com o medico. O medico ainda me disse para eu voltar naquele domingo e ganhar uma massagem ayurvedica completa, o que infelizmente nao pude aproveitar.

No domingo era aniversario do Sankalp e meu ultimo dia completo com eles. Pela manha fomos a um templo da regiao, onde vi meu primeiro elefante na India. A tarde decidimos ir visitar o forte Panhala, do seculo XV-XVI, perto de Kolhapur. Eramos dez pessoas e, pela primeira vez, havia duas meninas conosco. Uma delas estava la porque queria me conhecer e conversar comigo. Parte da familia dela eh catolica, do Kerala, sul da India, e, por isso, ela tinha uma mente mais aberta - segundo ela mesma. De fato nao era mentira; eu estava em um local com tradicoes ainda muito arraigadas e meninas em momento algum tinham vindo falar comigo. A outra menina que estava la era namorada de um dos meninos e, no maximo, eles ficavam de maos dadas - nada alem disso. Ter namoradas nao eh tao incomum assim (uns 20% deles tem), mas os pais nao podem saber de jeito nenhum, o que tambem implica em saber de antemao que praticamente com certeza eles nao se casarao. E o simples fato de a primeira menina ter ido so por minha causa foi um grande acontecimento para os meninos. Muitas vezes os assuntos entre eles e eu eram sobre os namoros no Brasil - e eu, tadinhos, falava tudo e as vezes em detalhes... ninguem manda perguntar, ne...


Fotos: Elefante num templo; almoco coletivo na Shivaji University (Kolhapur); e tilak na minha testa para o meu aniversario.