17 de março de 2008

Ibira na India - Parte 8

(Buda, cavernas de Ajanta, Maharashtra)
(Daulatabad Fort, Maharashtra)

(Ranguli feito para mim em frente a casa)



Apos eu e Pradeep sairmos de Shirdi, por volta do meio dia, fomos para a vila/cidade em que moram os tios dele. Embora em quilometros essa vila nao fosse tao distante, levamos pouco mais de seis horas pra chegar la, pois nao so pegamos onibus local, que para em todos os lugares possiveis e nao eh tao rapido e eficiente quanto o Volvo, mas tambem passamos por estradas muito estreitas e sinuosas. Quando chegamos na cidadela ja era noite. Fomos andando pelas ruelas da parte antiga ate chegarmos em frente a uma casa um pouco maior que as demais – era a casa dos tios de Pradeep. Na rua, em frente a escadinha que dava na varanda da casa, uma surpresa: um ranguli havia sido feito especialmente para dar as boas vindas para mim. Ranguli eh uma especie de mandala feita com areia fina colorida, geralmente desenhada na entrada dos lugares em ocasioes especiais para dar boas vindas aos convidados, por exemplo.

Ao entrarmos todos nos esperavam. Imediatamente trouxeram o famoso cha indiano (ainda bem que, pra mim, esse cha eh gostoso...), enquanto comecei a ser alvo de perguntas triviais e que seria a enesima vez que estava respondendo. De onde voce eh? Por que esta na India? Por quanto tempo? O que voce mais gostou ate agora? E a comida indiana, gostou? O que voces comem no Brasil? E por ai vai...

Pouco depois teve a janta, no chao e com as maos, claro. Apos jantarmos o Pradeep me levou para a casa de outra tia dele, ali pertinho. Era uma casa muito pequena, na verdade porque havia sido dividida ao meio para dar espaco a clinica da tia, que eh medica. Na casa havia apenas mais o marido e o filho deles, Rakul, de 14 anos. Serviram mamao picado pra mim, com mais uma chicara de cha indiano. Enquanto isso, o marido da tia me perguntou se eu conhecia o mamao e se tinha tanta fruta no Brasil quanto na India. Disse que sim, e que na verdade no Brasil ha muito mais variedade de frutas e vegetais do que na India... dessa vez nao consegui segurar. O filho deles so me ouvia, mas nao falava nada; mas isso ficou assim ate ele descobrir que eu era formado em Geografia, a materia preferida dele. Imediatamente ele chegou com dois atlas escolares para me mostrar os mapas tematicos da India, e me explicou tudo. Depois quis que eu explicasse sobre o Brasil, o que produziamos etc... experiencia simples mas absolutamente inesperada.

Fomos dormir. No dia seguinte acordariamos cedo pois teriamos mais um dia corrido. Por sorte o tio do Pradeep emprestou o motorista dele para a gente e assim Rakul pode vir conosco, no carro velho da decada de 50/60. Antes de sairmos de casa, a tia do Pradeep veio ate nos colocar um tilak em nossa testa e deu-nos uma nota de 50 rupias para cada um - eh um ritual para desejar boa viagem. O primeiro lugar que paramos foi o Daulatabad Fort. Eram ruinas de uma cidadela murada dos anos 1600, mas que foi muito interessante de ver, principalmente por seu avancado nivel de seguranca para a epoca. Mas como muitos lugares do genero na India, essas cidadelas viram lugares fantasmas logo apos o rei morrer, principalmente porque cada novo rei queria construir a sua propria cidade, com seu proprio nome. O bom eh que agora, no seculo XXI, temos muuuuitas coisas a ver...

Apos o Daulatabad Fort fomos para um dos lugares mais impressionantes e valiosos que vi ate agora na India: as cavernas de Ajanta. Ajanta eh um conjunto de 29 cavernas inteiramente esculpidas na rocha por monges budistas, sendo algumas escavadas para serem especies de monasterios, enquanto outras eram locais de meditacao. Os mais antigos datam do seculo II antes de Cristo e os mais recentes do seculo VII depois de Cristo. Sao os mais antigos, porem, os mais importantes, nao so pela data, mas principalmente por conterem paineis pintados com um detalhismo impressionante, contando a historia de Siddharta Gautama e depois de ele virar Buda. Tambem impressionou o fato de o local estar, agora, extremamente bem conservado e com excelentes estruturas de preservacao e iluminacao interna para nao prejudicar os murais.

Depois de sairmos de Ajanta fomos para Jalgaon, onde dormiriamos na casa de outros familiares do Pradeep. No caminho passamos por estradas de novo estreitas e sinuosas e cruzamos diversas vilas extremamente pobres. Isso, na verdade, nao era novidade pra mim. Novidade foi quando, pouco antes de cruzar uma dessas vilas, apos o sol baixar, senti um forte cheiro de coco. Olhei para a beira da estrada e percebi inumeras pessoas agaixadas, em ambos os lados da pista, fazendo as suas necessidades ali mesmo, cada qual com seus respectivos baldinhos com agua. O mesmo se repetia do outro lado da vila, e em todas as outras vilas que cruzei naquela noite, antes de chegarmos em Jalgaon.

Jalgaon eh uma cidade grande. Quando chegamos na casa dos outros familiares do Pradeep, adivinhem, serviram cha indiano, claro. Era a casa mais rica que estava ficando ate entao na India, nao muito grande mas com todo o conforto; mesmo assim, logicamente, havia cama na sala, como (quase) sempre. Jantamos e fomos dormir. No dia seguinte eu deveria estar ao meio dia na estacao de trem mais proxima dali, pois, finalmente, partiria para Delhi, mais de mil quilometros dali. Quando acordei, no sabado, dia 16 de fevereiro, estava com dor de barriga. Pensei: “Puxa vida, sera?”. E sim, foi, estava com diarreia bem no dia em que ficaria 17 horas dentro de um trem. Nao contei pra ninguem na casa. As 11 da manha me deram almoco, que tive que comer correndo e estava sem fome, alem de tudo, por causa da dor de barriga. Depois de 16 dias de India os germes hindustanis me venceram.

Enfim, fui a estacao e peguei o trem, que atrasou so um pouco. O trem era do mesmo estilo que o primeiro que eu havia pego de Mumbai para Chiplun, com lugar para dormir em nichos de seis pessoas. No lugar em que eu estava nao havia ninguem com cara de que quisesse conversar. Porem, por sorte, um rapaz perguntou se eu nao podia trocar de lugar com ele, pois assim ele poderia ficar junto do amigo. Disse que sim, sem problemas; afinal, minha unica preocupacao ali era minha dor de barriga... acabei tendo sorte, no final de contas. No nicho em que acabei ficando tinha um senhor com seus dois filhos (um homem e uma mulher, ambos com mais de vinte anos). Esse senhor, depois de um bom tempo, acabou puxando assunto comigo e disse estar preocupado, pois notava que eu nao estava comendo nada – eles comiam alguma coisa a cada estacao que o trem parava. Apenas disse que nao estava com fome e agradeci a preocupacao. Ele perguntou mais algumas coisas basicas, mostrou que sabia ate alguma coisa sobre o Brasil, mas ficamos nisso. Apos mais algum tempo, de repente, quando paramos em alguma estacao qualquer, ele desceu e voltou com um cacho de uva e uma mexirica pra mim. Embora sempre me recomendassem nao aceitar nada de ninguem nos trens, nao recusei as frutas e comi. Mais um tempinho passado e o mesmo senhor, de novo, comprou pra mim um cha indiano que passam vendendo dentro do trem. Agradeci, ate envergonhado, pois assim parecia que eu era um pobre coitado; mas a verdade eh que indiano, quando eh educado e atencioso, ele sabe fazer isso direito, realmente. Depois de mais um tempo ajustamos nossas “camas” e dormimos.

As sete da manha do domingo seguinte, 17 de fevereiro, estava eu chegando em Nova Delhi, finalmente. Agradeci imensamente a preocupacao daquele senhor, despedi-me e fui embora, para mais uma etapa da minha viagem.