29 de março de 2008

A Música Clássica Indiana - Parte 2


Rasa - Estética da Música Indiana

Está profundamente ligada à música indiana a idéia de expressar certos sentimentos e emoções (bhava) que culminam no conceito de Rasa, o sabor, a essência a ser interpretada pelo executante e desfrutada pelo espectador. A teoria clássica do Rasa, tal como é aceita hoje em dia teve sua origem no século X a partir dos argumentos grande filósofo e esteta da Cachemira, Abhinavagupta que definiu um total de nove rasas, ou categorias de sentimentos capazes de serem percebidas e experimentadas pelos seres humanos, são os nava-rasas:


Nava – Rasa

Termo Sânscrito

Significado Principal

Outros Significados e Emoções Relacionadas

Shrngara

O Amor (O Erótico)

Beleza, Devoção, Erotismo

Hasya

A Alegria (O Cômico)

Humor, Sarcasmo

Adbhuta

O Maravilhoso

Curiosidade, Mistério

Shanta

A Tranqüilidade

Calma, Relaxamento

Raudra

A Furia (O Furioso)

Irritação

Vira

A Coragem (O Heróico)

Heroísmo, Orgulho, Confiança

Karuna

A Tristeza (O Patético)

Compaixão, Piedade, Condolência

Bhayanaka

O Medo (O Terrível)

Ansiedade, Compaixão

Vibhatsa

O desgosto (O Abominável)

Depressão, Auto-Piedade


Cada Raga pode expressar um ou mais rasas de acordo com a velocidade, o tempo, e o movimento melódico em que o Raga é executado. Por exemplo, o Raga Yaman Kalyan é considerado doce e gentil, madhur, em Hindi, e segundo o grande cantor Pandit Omarnath Thakur (1897 – 1967), fundador da Faculdade de Música da Universidade de Benares, o caráter estético de Yaman Kalyan pode ser descrito como “o sentimento do despertar, emergindo do estado do sono”. O célebre sarodista Ali Akbar Khan diz que este raga pode expressar um leque de sentimentos estéticos que abrangem o amor em sua forma devocional (bhakti) ou erótica (shringara), o sentimento de compaixão (karuna) ou ainda a tranqüilidade (shanta).

Cada um dos Rasas são diferentes qualidades estéticas que podem ser representadas e interpretadas como um sentimento refinado. Dentre todas as qualidades de sentimentos, Abhinavagupta destacou Shanta, a Paz ou Tranqüilidade como a essência de toda contemplação estética da arte. A tranqüilidade (shanta) é um pré-requisito básico para o desfrutar estético e, nas palavras de Abhinavagupta: “Porque shanta esta fundamentado no mais elevado objetivo do homem, isto é, porque shanta pomove a liberação última (moksha), é o mais importante de todos os rasas” (em Masson & Patwardhan, 1969: 102-03)

Diz Bharata no Natyashastra: “Vários sentimentos, devido às suas causas particulares respectivas, surgem de shanta. Mas quando estas causas desaparecem, aqueles rasas se fundem novamente com shanta” (NSh 6.87 em Masson & Patwardhan, 1969: 140)


Notas na Música Indiana


Na música indiana as sete notas da escala (saptak) chamam-se swara. No sistema hindustani, a partir destas sete notas formam-se os Thaats, que são os modos como a escala pode se apresentar. Existem 10 Thaats básicos que dão origem aos inúmeros Ragas do sistema hindustani. Na música Carnática os modos da escala aparecem como Melakartas, que contam com o número de 72.

As sete notas da escala indiana são ainda divididas em 22 srutis, ou microtons, cujo uso permite requintadas nuançes de expressão musical inatingíveis pela escala cromática do Ocidente, de doze semitons. Cada uma sete notas fundamentais tem relação com uma cor e com o grito de um animal além da profunda relação com os chakras.

Nada Yoga – O Yoga do Som

De acordo com a metafísica hindu, o Absoluto não pode ser pensado, mas sabe-se que dele emana um som primordial, Om. Pode-se ouvir o Absoluto, e seu som é Om, o som a partir do qual surgem todas as demais manifestações de matéria e energia.

A palavra sânscrita para som é Nada.

Nada Yoga significa a união através do som, ou a união com o som. Existem dois tipos de som, o Ahat Nad (produzido externamente) Anahat Nad (percebido internamente pelos yogues avançados). A concentração no som (nada), conduz a mente e o espírito à tranqüilidade (shanta) necessária para a união (yoga) com o Absoluto (Om).

Todos os mantras são originados a partir da sílaba Om, a partir da qual surgem também as 50 sílabas subseqüentes do alfabeto devanagari que compõe os mantras em sânscrito.

Grande santos indianos eram capazes de operar feitos maravilhosos através do uso correto das ondas sonoras. O grande santo e músico do séc IV, Sri Tan Sem atraía a chuva ao cantar o Raga Megh e acendia lamparinas ao executar o Raga Deepak, indicando o infinito poder do som.

Cientistas modernos descobriram que ao ser exposto a determinadas freqüências de som, o corpo humano pode adoecer ou ser levado a um processo de cura. Os antigos sábios da Índia há muito tempo já conheciam essas maravilhosas propriedades do som e descobriram que certas combinações de notas executadas, assim como certos Ragas, podem produzir efeitos maravilhosos de cura e elevação espiritual.