7 de novembro de 2008

Thayse na Incredible India



Namaskar

Temos hoje o interessante depoimento da ultima viagem da Thayse Dal Ponte a Incredible India!

Repassando...

Escrevo hoje, a pedido da Sandra, relatando alguma coisa engraçada ou bizarra que tenha me acontecido na Índia.

ALGUMA COISA, pensei eu, no singular. Isso, na Índia, não existe. As coisas mais bizarras que eu vi na minha vida, foram TODAS vistas por lá. E olha que eu só tenho 22 anos e eu já estive lá duas vezes. Uma diferente da outra, mas as duas foram experiências incríveis. Nada por lá é singular. É tudo no plural, tudo demais, tudo feito de MUITOS. Nada de poucos e insignificantes. Nada despercebido e sem emoção.

Uma simples ida ao mercado é um fato interessante por si só. Quando choveu muito em Jaipur e eu precisava meeeesmo ir ao mercado, peguei um cycle rickshaw. Ele me deixou na frente... mas não tinha como eu descer e entrar no mercado! Tava tudo alagado e o rio que se formava na frente da calçada era algo assustador. Então o "bicicleteiro" fez uma manobra, estacinou o cycle..e eu ainda não conseguia descer. Aí ele tentou de novo, pro outro lado. E não deu também. Na terceira tentativa ( eu já prevendo as micoses que ia pegar naquela água parada que estava prestes a atravessar ) ele estacionou direitinho. Eu só precisava esticar a perna e estava na mesma altura do degrau do mercadinho. Era só descer. Sem água parada. Sem micoses. Sem roupas molhadas. No mesmo instante que ele se deu conta que tinha feito a coisa certa e eu dei graças aos bons deuses, uns 4 ou 5 motoristas de auto, sem ter nada pra fazer naquela inundação, aplaudiram a cena toda!

Bizarrice é tentar pegar um auto em um lugar turístico. Para sair do bloco B do Connaught Place, Delhi, cheia de sacolas, morta de fome, passando mal de calor e ir até o bloco P, um trajeto que demoraria uns 10 minutos e talvez umas 20 rúpias para um indiano, sai da boca do motorista como um simples suspiro, sem nenhuma vergonha na cara ( a única cara que é feita, por sinal, é cara de "eu sei o que eu estou falando!" ) : 100 Rúpias, diz ele. "Baisaaaap! Não é tão longe assim, por favor, me diz então agora o preço REAL do trajeto". A cara de mau se desfaz na hora, às vezes um sorriso ou até mesmo uma gargalhada. "Baisap!!?". Pego eles de surpresa e eles desandam a falar em hindi comigo com a maior naturalidade. (não, eu não falo hindi, contando do 1 ao 10 e mais umas 5 ou 6 palavras... é, digamos que eu me viro bem no meu hindi raliiinho, raliiinho!)

Bizarrice é estar quase chorando de emoção na frente do Taj Mahal, uma das maravilhas do mundo moderno, e notar que têm câmeras apontadas pra nossa cara. "Excuse me" e lá vem um indiano largando o bebê marinado de kajal no nosso colo... Por que raios eles querem uma foto com uma estranha sem sapatos, toda suada e com o cabelo preso de qualquer jeito, equilibrando a garrafa de água mineral e a máquina fotográfica e o filho deles junto? Quem vai olhar aquela foto e gostar? A criança, quando crescer? Assim começava a minha explanação sobre "você está na frente do Taj Mahal, uma das maravilhas do mundo moderno, tira foto disso, poxa vida! Não de mim!" E quando eu cansava muito de falar todo esse texto abaixo de sol queimando meu couro cabeludo, eu só dizia que no Paquistão não deixavam eu tirar fotos com estranhos. Eram minutos de paz preciosos os que se seguiam depois da cara de horror dos indianos!

Não posso esquecer também da estranha sensação de tentar enfiar um sapato que não tem esquerda / direita, menor que o meu número, no meio na Pink City, Jaipur, no meu pé que eu tenho certeza que era 38, quando eu deixei o Brasil. "Cabe sim" diz o vendedor, pedindo licença, se ajoelhando na minha frente, dobrando meus dedinhos para entrar naquele sapato que eu lembro de ter dito antes "acho que esse é muito pequeno!". Não sei de onde surgiu aquela pessoa que tirou o sapato do meu pé, enfiou o par de jootis em um tonel cheio de água, bateu ele na pedra quente, esticou, esticou, puxou, esticou. Bateu mais um pouco na pedra quente e me devolveu. "Agora cabe!". E o estranho é que eu tenho ele até hoje ( no momento, enquanto escrevo isso, uso os sapatos, já moldados no meu esquerdo / direito ) e acho que vou lembrar dessa cena para todo o sempre, toda a vez que eu calçar esse pedacinho de couro bordado que eu tanto adoro.

Bizarro é o bombardeio de informações quando a gente olha pra algum produto exposto em alguma lojinha / banca na rua. É uma frase atrás da outra e o que a gente achou bonito já se perdeu em meio aos 12 vendedores que tentam te empurrar pra dentro da loja, quando ainda estamos atravessando a rua. De longe eles enxergam teus olhos fixos em alguma coisa e te perseguem, te levam à exaustão com "Do you like, madam?", "Do you need, madam?", "Come inside, more colors!", " More colors inside" ( Ahhh.. ok... se eu quiser ver mais cores eu entro. Se eu entrar, parece que eu vou encontrar mais cores desse modelo!!! A gente pensa consigo mesmo a essas alturas "gostaria de ser surdo!" ) "Come to my shop!", "You don't like madam?", "Different designs inside, madam!". Na verdade eu acho que tinha visto uma roupa toda bordada que eu talvez levasse de relíquia e usasse no dia do meu casamento ( caso eu venha a subir ao altar!) e, de quebra obrigasse a minha filha ( caso eu tenha uma ) a usar no casamento dela também! Era linda. Mas com toda essa pressão e essa luta corporal dos vendedores tantando me puxar pra dentro da loja ... perdi o encanto. Acho que vou casar enrolada em um saco de batatas mesmo. Talvez eu faça um penteado legal pra disfarçar!

E o pior das bizarrices, o top top, a premiação do ano: querer voltar pra Índia algumas outras vezes! Como pode nascer dentro da gente uma coisa dessas? Isso sim é bizarro!

Fotos: Thayse Dal Ponte