6 de maio de 2011

Elza

Elza



Por: Rocky Gadelha


Aconteceu em São Paulo, em 1962... Tinha acabado de entrar na Faculdade de Direito McKenzie. Na minha sala, os estudantes se dividiam em dois grupos: aquele dos esnobes da esquerda, que decoravam frases de livros da moda para parecerem cultos e o dos machões, que tinham o cérebro menor do que o minúsculo órgão genital, como acontece sempre a tal casta.



Eu não pertencia a nenhum dos grupos e como eu, uma colega chamada Laura, que já tinha 35 anos de idade, entrara na faculdade para subir na sua profissão e não para ganhar um carro do pai.


Tínhamos uma outra colega chamada Lilibeth. Era mulata, filha adotiva única de um rico casal libanês. Por ter sido muito mimada, Lilibeth era demasiadamente infantil. Usava gorrinho e luvas cor-de-rosa e tinha nas capas dos livros de Direito decalques de gatinhos e patinhos. Talvez não fosse muito inteligente, mas era delicada, tentando aproximar-se dos colegas, como um gatinho abandonado, sendo humilhada pelos "intelectuais" de esquerda e hostilizada barbaramente pelos machões que a chamavam de "Elza", por causa da cantora negra Elza Soares.


Apenas eu e Laura falávamos com "Elza", por sermos destacados do resto da sala. Quando "Elza" chegava, o coro de machões gritava "Elza! Elza! Elza!" Qualquer movimento que fizesse, gritavam de novo "Elza! Elza..." A tal ponto que os professores deixaram de interrogá-la, para não provocar confusão na sala.


Um dia, após o intervalo, estávamos todos na escada de madeira. As salas não tinham sido abertas, o que provocava forte congestionamento. Foi quando o coro dos machões começou "Elza! Elza! Elza". Lilibeth se sentiu mal, teve uma convulsão e despencou do alto da escada. Foi chamada uma ambulância e ela foi retirada do local. Não morreu, mas ficou bastante ferida.


Alguns dias mais tarde, Laura foi visitá-la no hospital. Lilibeth mandou um abraço para mim, "a única pessoa boa que tinha conhecido na faculdade". E nunca mais voltou.


Fui embora para o Rio e anos mais tarde, passei por São Paulo. Como me lembrava do número telefônico da firma onde Laura trabalhava, liguei para saber dos colegas da faculdade, que então já tínhamos terminado. Perguntei por "Elza" e soube que tinha morrido. Laura não sabia exatamente, mas parece que tivesse um tumor no cérebro.


A história continua a se repetir, apesar de todos os direitos e garantias dos quais somos mais vítimas do que beneficiários.





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