20 de setembro de 2007

Vera em Puttaparthi - Parte 2



Namaskar

Hoje temos a continuação do relato da Vera sobre sua visita a Puttaparthi, Índia. Leia a primeira parte deste relato no arquivo do dia 28 de agosto de 2007 entitulado Vera em Puttaparthi.

Após nossa rápida instalação no quarto do hotel e o reconhecimento dele, trocamos de roupa para podermos conhecer (finalmente) o ashram de Sai Baba. Eu já havia levado do Brasil algumas roupas típicas indianas (punjabs e sári) emprestadas de uma amiga e meu marido também já tinha um punjab emprestado para vestir, dessa maneira não precisaríamos nos preocupar em comprar roupas logo no primeiro dia.

Nos vestimos à caráter e fomos ao ashram. O hotel ficava um pouquinho distante do ashram então tínhamos que andar um pouco, nada exagerado, mas era o suficiente para podermos reparar nas lojinhas, farmácias, vendedores ambulantes, pessoas na rua, etc..... Reparei que havia estabelecimentos aparentemente muito humildes, porém com computador e monitor tela plana.

Tudo chamava muito a atenção, além dos próprios vendedores, que queriam que entrássemos na loja deles de qualquer maneira. As lojas de roupas eram muito atraentes, assim como as de imagens de deuses. Dava vontade de entrar em todas.

Nesse percurso também podemos ver muitas pessoas pedindo esmolas. Na verdade, crianças e mulheres. Já estávamos mais do que avisados, tanto pela Sandra quanto pela Isabela, nossa agente de viagens, para não darmos esmola à ninguém, pois na verdade isso é meio que uma profissão na Índia. Mas eles são muuuuito insistentes! Ficam pegando no nosso braço e nos acompanham pela rua afora, fazendo sinal de que estão com fome. É algo bem desagradável.

Chegamos ao portão do ashram. Eu esperava encontrar uma atmosfera de paz ao redor de um ashram, afinal o nome dele é Prashanti Nilayam que significa Morada da Paz Suprema, porém encontrei uma multidão de pessoas entrando, saindo, vendedoras de flores sentadas na calçada fazendo guirlandas, rikshaw´s andando em todas as direções, ou seja, um tumulto.

Entramos no ashram e conforme fomos andando pudemos realmente perceber sua verdadeira natureza de paz. Havia muita gente transitando, pois o darshan (aparição de Sai Baba entre os devotos) havia terminado há pouco tempo e as pessoas estavam saindo do mandir (templo onde Sai Baba dá o darshan). O local é muito grande e bem cuidado. Parece o campus de uma universidade. Para poder ter uma pequena noção, somente o mandir tem capacidade para 40 mil pessoas. E não pense que é difícil chegar nessa capacidade máxima.

Bem, eu e Daniel estávamos na verdade procurando o grupo de brasileiros, muitos deles amigos do Rio que já estavam no ashram há alguns dias.

O motivo de viajarmos à Índia nessa época é que ocorreria a III Conferência Mundial de Jovens. Haveria jovens do mundo inteiro e o Brasil estava lá, com aproximadamente 40 pessoas, entre jovens (maioria) e adultos. Quando falo em “jovem” não pense que se trata de uma bando de crianças e adolescentes. Para Sai Baba, jovem é aquele que está na faixa etária de 16 a 35 anos. Portanto, havia muitos jovens adultos por lá (eu e Daniel, inclusive).

Bem, andamos um pouquinho pelo ashram e nada de encontrar ninguém conhecido!

Como fazíamos parte da Conferência, tínhamos que fazer a confirmação de nossa inscrição no escritório, porém deixamos pra fazer isso no outro dia, pois como o local era imenso nem esse escritório conseguimos achar. Sem falar que estávamos cansados por causa da viagem, etc.

Passamos pela residência de Sai Baba e pudemos ter um vislumbre de Sua aura de amor e paz. O local é rodeado de plaquinhas indicando que as pessoas façam silêncio e sevas (funcionários voluntários) que se certificam que ninguém irá falar, conversar, ou seja, cuidam para que ninguém faça um pio sequer. Todos os sevas são facilmente identificáveis. Os homens usam roupas brancas e lenço azul no pescoço. As mulheres usam sáris e lenço laranja.

Havia muitas árvores ao redor da casa e pássaros aos montes, o que aumentava ainda mais a sensação de paz e harmonia.

Bem, depois desse rápido reconhecimento do ashram, e sem encontrar nenhum conhecido, resolvemos voltar ao hotel para jantarmos, descansarmos e nos preparar para o dia seguinte, que prometia ser cheio.

Voltamos ao hotel e antes de retornarmos ao quarto, fomos ao restaurante. Ficávamos morrendo de vergonha pq em qualquer lugar que aparecíamos todo mundo ficava nos olhando. Deve ser o Efeito ET que a Sandra tanto fala, mas achei que em Puttaparthi, que está sempre cheia de estrangeiros, as pessoas já estivessem mais acostumadas.

Reparei que o restaurante estava meio que na penumbra. Escolhemos uma mesa e nos sentamos.

Era um restaurante bem simples. Veio o garçom (que depois vimos que também era carregador de malas, recepcionista, etc) e acendeu a lâmpada próxima à nossa mesa. Aí é que entendi que eles só devem acender as lâmpadas se tiver cliente, para não gastar energia à toa (pelo menos foi a impressão que deu).

Chegou o cardápio e fomos escolher algo pra comer.....e aí, o que comer?

Eu queria me arriscar em algum prato indiano, mas não sabia o que era o quê. Fiquei com medo de pedir algo que fosse muito apimentado e acabar deixando a comida toda, além de poder ter algum efeito colateral desagradável que me impedisse de ir ao ashram no dia seguinte. Acabamos indo no mais trivial possível: sanduíche de queijo grelhado. Para beber, pedimos se havia Fanta. O garçom multi-tarefa nos olhou com cara de interrogação e disse que tinha Coca, Sprite....e Mirinda! Acabamos indo de Mirinda e aqui cabe uma observação: porque a Mirinda indiana é tão laranja? Parece algo meio fluorescente. Ah, outro fato interessante: nos restaurantes indianos onde estivemos, ao sentarmos na mesa a primeira coisa que nos era oferecida era água. E reparei que o garçom ficava meio desconcertado se a gente recusava. Nesse restaurante havia um daqueles matadores de insetos elétricos. De vez em quando podíamos ouvir um “bzzzz” qdo um insetinho era eletrocutado.

Bem, terminamos nosso lanche, pedimos a conta e quando o garçom chega com a conta traz junto um potinho cheio de uma sementinha branca, com uma colher dentro, e deixa na nossa mesa, na maior naturalidade.

Eu e Daniel nos entreolhamos e perguntei pro rapaz o que era aquilo. Ele disse o nome da coisa (que eu não consegui entender) e disse que era bom pra digestão, passando a mão na barriga.

Resolvi experimentar. Peguei um pouquinho da semente, que mais parecia um apanhado dos insetinhos mortos pelo inseticida elétrico, e pus na boca. Tinha um gosto docinho....bom até. Resolvi mastigar e aí a sementinha se revelou com um gosto de sabonete bem ruinzinho. Acho que era alcaçuz, mas até hj não sei exatamente o que é a tal semente branca. Em outro hotel que ficamos posteriormente em Bangalore nos deparamos novamente com um potinho de sementes brancas.

Bom, voltamos para nosso quarto, desfizemos as malas, separamos as roupas que usaríamos no dia seguinte, tomamos um banho (água quente, um luxo!) e nos preparamos para dormir.

Eu estava super ansiosa com o dia seguinte, pois seria a primeira vez que participaria das atividades do ashram, além de ser o dia em que veria Sai Baba fisicamente pela primeira vez!

Acho que a emoção/nervosismo eram tantos que perdi o sono no meio da madrugada.....

Outro fato que estava me deixando bem inquieta é que durante a Conferência haveria uma apresentação de dança para Sai Baba realizada pelo Brasil, México e Venezuela. Lógico que eu não poderia perder essa oportunidade de me apresentar para Ele, mas há alguns poucos dias da apresentação eu ainda nem fazia idéia de como seria essa dança.

Na manhã, ou melhor, madrugada seguinte, pois eram às 4 da manhã, levantamos para podermos nos vestir e chegar ao ashram para as primeiras atividades.

Foi aí que percebemos que havia uma mesquita muito próxima ao hotel e que neste horário já havia alguém lá iniciando as orações muçulmanas. Todos os dias acordávamos ao som das orações. Era muito gostoso, algo bem característico e típico do lugar.

Saímos para ir ao ashram e pude perceber que mesmo sendo tão cedo as ruas já estão muito movimentadas. Já havia pessoas andando, trabalhando, vendedores ambulantes descascando laranjas, preparando chá.....as mulheres com suas cestas de flores preparando as guirlandas na calçada....

Chegamos ao ashram. Eu fui pra um lado e o Daniel para outro. Homens e mulheres fazem as práticas espirituais sempre separados. Até o almoço é separado. Até o horário de entrar no “shopping” do ashram é separado para homens e mulheres. Bem, cada um seguiu para um lugar. Fui à fila do darshan aguardar para entrar no mandir. Já tinha ouvido falar sobre os maus modos das indianas e na fila do darshan pude constatar isso. Elas adoram cortar fila! Qualquer oportunidade que apareça elas entram do seu lado, meio que em diagonal e ficam ali com a maior naturalidade. Uma delas fez isso comigo e eu tive que dizer a ela que o fim da fila era lá atrás. Ela acabou saindo, ainda bem, sem criar caso. Outra coisa desagradável era o odor das flores que elas usavam nos cabelos. Eu já mencionei anteriormente que havia várias mulheres do lado de fora fazendo guirlandas. Muitas são mini-guirlandas para que as mulheres coloquem como enfeite no cabelo. Só que essas flores têm um mau cheiro (a meu ver) horroroso. Eu estava me sentindo em um velório!

E pra completar minha saga solitária no meu primeiro darshan, passei pela provação de ficar horas sentadas. Eu já sabia que passaria por isso, pois temos que chegar muito cedo para nos organizarmos em filas, esperar as filas serem sorteadas, entrar no mandir e aguardar até que Sai Baba sai de Sua residência. Já tinha ouvido falar de outros devotos que a espera é longa e cansativa, mas realmente é algo desesperador. A uma certa altura eu estava com as pernas muito doloridas de ficar sentada no chão. As costas, então, nem se fale.

Só que ao tentar colocar as pernas em outra posição a pessoa ao lado acabava tomando o espaço que minhas pernas ocupavam aí, quando eu resolvia voltar pra velha posição, não havia mais espaço. Uma tortura! Outra coisa muito desagradável foi ter que aturar a mulher do meu lado arrotando! Em pleno mandir, há poucos minutos de Sai Baba aparecer, a mulher do meu lado resolve comer uma semente/noz estranha que ela levava na bolsinha. Eu só ouvia aquele barulhinho característico de semente sendo triturada. A mulher mastiga, mastiga e dali a pouco solta um baita arrotão bem na minha direção! Eu fiquei muito indignada, mas tentei fingir que não tinha acontecido nada. Dali a pouco a mulher resolve comer outra semente. Ai, ai, ai, eu já comecei a prever o que aconteceria. A mulher novamente vira o rosto pro meu lado e solta um belo arroto. Novamente fiquei muito indignada e enojada. Olhei pra mulher com cara de reprovação (foi o máximo que tive coragem de fazer). Ela deu a entender que percebeu minha chateação e parou com esses lanchinhos.

Eu me sentia como se estivesse sendo testada. Completamente sozinha, sem nenhum conhecido ao meu lado. Uma mulher cortou minha frente na fila e eu tive que reclamar. Estava há horas sentadas, sem espaço para me acomodar. A mulher do meu lado comendo em um local sagrado e arrotando na minha cara. Não era possível que para ver Sai Baba fisicamente eu tivesse que passar por tantos desconfortos e aborrecimentos.

Nesse momento a entoação dos Vedas se iniciou, as luzes do mandir se acenderam e Ele finalmente entrou. A angústia, dor, incômodo foram todos substituídos por muita alegria, emoção e gratidão por poder estar ali. Foi muito emocionante vê-Lo fisicamente pela primeira vez.

FOTOS: Vera e as sementinhas de anis & cidade de Puttaparthi