9 de setembro de 2008

Edvan na India


Namaskar

Temos hoje o depoimento do jornalista Edvan Coutinho que acaba de retornar de sua viagem a Incredible India!


“Uma viagem à Índia era um sonho de muitos anos. Pois, durante 3 semanas entre julho e agosto de 2008, conseguimos finalmente realizar a aventura de conhecer esse país tão admirado no mundo por sua cultura milenar. A viagem não foi fácil. Primeiro porque você tem que se acostumar à idéia que a higiene é algo relativo nesse país. Então, mesmo nos restaurantes finos, freqüentados por estrangeiros, ou mesmo pela classe média indiana, os garçons podem estar vestidos com roupa bem suja, os toiletes podem ser nojentos e eles podem colocar na mesa uma garrafa térmica com água para o chá, por exemplo, tão imunda mas com tanta naturalidade que você chega a conclusão que isso "faz parte da cultura".

Quem é turista é tratado como uma pessoa quase sem direito como consumidor. Os indianos tem a mania de dizer you're the boss, mas não adianta que para eles, o turista tem mais é que se conformar com a baixa qualidade de serviços. Por exemplo, num restaurante, a gente pediu 4 pratos diferentes. Depois de meia hora, chegou o prato que minha mulher pediu; 45 minutos depois o prato que nossa amiga pediu; e uma hora depois, o terceiro prato, o do nosso amigo. Foi aí que o garçom explicou que o quarto prato, o meu, já não havia mais. Saí do restaurante e tive que comer um sanduíche no hotel. Nós quatro quase nunca conseguiamos comer ao mesmo tempo e ainda podia acontecer de um de nós não ser atendido.

Quando você saiu à rua, o assédio de supostos "guias", vendedores, condutores de rickshaws, mendigos e toda uma fauna suspeita chega a ser irritante. Para as mulheres, turistas desacompanhadas, o assédio chega a ser agressivo.

Como tinhamos pouco tempo, minha mulher, eu e um casal amigo que viajou conosco, decidimos seguir a sugestão de várias pessoas: alugar um carro com motorista para assim aproveitar ao máximo o tempo para conhecer o Rajastão. O carro era confortável, o motorista dirigia bem (e tem que ser bom no trânsito maluco nas estradas e cidades), mas sofremos para entender o inglês que ele falava.

Depois, tivemos que administrar os interesses comerciais do motorista. Tinhamos um bom livro guia de viagens (o Routard) que indica os hotéis por categoria de preço. Desde o começo dissemos ao mister driver que não iriamos a nenhum hotel estrelado. Bastava ser bem localizado, limpo e com bom preço - para nós, isso representava uma diária de no máximo 10 euros por um quarto de casal. Não adiantou, ele sempre queria nos levar a uns hotéis em havelis caríssimos e que no fundo nem valiam aqueles valores exorbitantes de diária na faixa das 2.500 rúpias - muitos eram bem decadentes, com cheiro de mofo, escuros. Depois, entramos no jogo: deixávamos ele nos levar a esses lugares, olhávamos os quartos, diziámos não, e em seguida íamos para os hotéis indicados pelo nosso livro. O mr. driver se acalmou. Foi quando percebemos que os motoristas têm a obrigação (talvez imposição do patrão, talvez para garantir uns trocados de comissão) de levar os turistas a esses lugares. Se eles ficarem, tudo bem. Se não, tudo bem também, mas pelo menos o motorista tentou. Assim, a gente não ficou em clima de guerra , como ficaram uns italianos que conhecemos e que já nem falavam direito com o motorista ainda na primeira semana de viagem. Segundo os turistas, o motorista dizia que não conhecia a rua do hotel escolhido por eles. Um absurdo.

Uma coisa que nos chamou a atenção (pelo cheiro desagravável) foram os mictórios abertos em Delhi ou em qualquer outra cidade do Rajastão. Mas, num lugar no deserto do Thar, num pequeno hotel de beira de estrada, o mictório era algo surreal (foto) e confesso que nunca tinha usado um com uma vista tão bonita. E melhor: era limpíssimo.

A convivência com os animais é algo especial na Índia: vacas, camelos, elefantes, pavões, pombos e macacos. Estes invadem as cidades e causam medo por serem agressivos, às vezes. Mas, os indianos encaram tudo com uma naturalidade que nos espanta.

Os palácios e fortes nas cidades do Rajastão são bonitos, mas a maioria bem mal-cuidada e os próprios funcionários constrangem os visitantes pedindo dinheiro ou se oferecendo para posar para fotos em troca de rúpias só porque estão de turbantes. Honrosa exceção é o Mehrangah Fort de Jodhpur (www.mehrangah.org), que tem uma exposição super bem montada e preservada, guias de áudio em 11 idiomas e onde os funcionários não importunam os turistas.

Outra lembrança inesquecível foi ver como, na Índia, o cinema causa comoção. Tivemos uma tentativa de assistir um filme em um domingão em Jaipur. Impossível: ficamos mais de uma hora na fila e os ingressos esgotaram. Uma multidão indo quase aos tapas para conseguir entrar. Mas também era um blockbuster, "Singh is King", um filme em que o ator principal, um sihk cortou o cabelo para atuar e isso virou um grande atrativo de público. Ainda bem, que dias antes, em Udaipur, a gente assistiu a outro filme de Bollywood, numa sala moderníssima e como era um dia de semana à tarde, tudo foi tranqüilo, e divertido, mesmo sendo falado em hindi, a gente conseguiu seguir a história e se divertir com os números musicais. Filmado em Mumbai, o filme mostrava ruas limpas e uma Índia que a gente sabe que existe tanto quanto as favelas ou bairros pobres nas novelas da Globo. Não sabemos se pela influência do cinema, ficamos com vontade de voltar para ir ao sul, conhecer Goa e Mumbai. Mas não tão cedo. A gente ainda está digerindo tanta informação, e nossos pobres intestinos ainda se recuperam de algumas (in)diarréias.”

Colaborou: Edvan Coutinho

Foto: Toilet limpo em pleno deserto indiano (Edvan Coutinho)

Incredible India!

Om Shanti