12 de maio de 2007

Cinema Indiano - Parte II


Namastê

O cinema como religião – Parte II

Os mistérios da relação passional dos indianos com seu cinema, que atrai diariamente cerca de 15 milhões de pessoas, e fez com que nenhum outro país tenha exacerbado tanto a extrema porosidade entre a vida real e o cinema

Texto de: Elisabeth Lequeret

Fusão do tradicional com o “moderno”

Os filmes recorrem constantemente a elementos da cultura tradicional que, por sua vez, se nutrem amplamente dos filmes

A originalidade, principal virtude de um roteiro ocidental, na verdade faria afugentar os indianos. Escrito em 1917 pelo romancista bengalês Saratchandra Chatterjee, Devdas relata o amor trágico do filho de um zamindar (proprietário de terras) e de uma jovem de casta baixa. Este magnífico melodrama, que se tornou um clássico da literatura, inspirou "apenas" 17 adaptações cinematográficas (entre as quais, em 1955, a sublime Devdas, de Bimal Roy, bem como a realizada em 2002 por Sanjay Leela Bhansali, com Aishwarya Rai, Miss Mundo 1994, no papel principal), mas seu enredo foi o ponto de partida para a trama de um número incalculável de obras de ficção.

Na Índia, os filmes recorrem constantemente a elementos da cultura tradicional que, por sua vez, se nutrem amplamente dos filmes. Neste tonel em que se fundem continuamente culturas regionais tradicionais e temas ocidentais "modernos", o psicanalista Sudir Kakar3 vê, inclusive, "a principal fôrma de uma cultura pan-indiana nascente. (…) O cinema abrange um público tão variado, que acaba transcendendo as categorias sociais e geográficas. Como alcançam, diariamente, cerca de 15 milhões de pessoas, a linguagem e os valores cinematográficos ultrapassaram, há muito tempo, as fronteiras da civilização urbana e impregnaram a cultura popular rural (…). Quando uma dança popular regional ou uma figura musical particular, como o bhajan ou canto sagrado tradicional, transpõem as portas de um estúdio de Madras, são transformados em dança de filme ou em bhajan de filme, através do acréscimo de elementos musicais e coreográficos de outras regiões, ou até de países ocidentais. Exibido, em seguida, em tecnicolor e som estereofônico, o original transforma-se em algo totalmente diferente. Da mesma forma, as situações, os diálogos e os cenários cinematográficos começaram a colonizar o teatro popular indiano. Até a iconografia tradicional de estátuas e imagens cultuais presta homenagem a representações dos "deuses" e das "deusas" do cinema".

Relação passional

Cada indiano se identifica com as personagens a ponto de esquecer, durante o tempo que dura uma sessão, seus problemas e infortúnios pessoais

Esses incessantes intercâmbios, sinais de uma verdadeira forma artística popular, não bastam para explicar a relação passional do público com o seu cinema. Ópio do povo? O fato de que cada indiano se identifica com as personagens a ponto de esquecer, durante o tempo que dura uma sessão, seus problemas e infortúnios pessoais constitui uma evidência. Da mesma forma, há certamente uma parte de verdade nas teorias que associam o fenômeno da projeção de um filme ao conceito de darsan – visão "mútua e benéfica", segundo a qual é possível tirar benefícios do simples fato de ver a imagem santa de uma divindade ou personalidade importante e, simultaneamente, ser "visto" por ela. Embora justifiquem o imenso sucesso do cinema, essas hipóteses não conseguem, contudo, explicar a relação passional dos indianos para com os seus filmes. (Tente dizer para um indiano que você não gosta dos filmes deles para ver só o que te acontece)!!

O psicanalista Sudir Kakar lembra-se de um "sistema de castas cinematográficas" que, durante sua infância, em Punjab, atribuía a pior classificação aos filmes de aventuras realizados com dublês – versão local dos filmes de kung fu –, enquanto que os filmes mitológicos e históricos ocupavam o mais alto grau da hierarquia cinematográfica. De maneira análoga, as soluções (deus ex machina, peripécias de última hora, etc.) que, em razão da obrigatoriedade do final feliz, selam a vitória final da viúva e do órfão contra o infame subornador, constituem a marca desta implacável cultura que tolera todos os excessos, desde que não perturbem as hierarquias tradicionais. Na verdade, o que caracteriza o cinema indiano não é tanto o fato de ser ou não o "ópio do povo" nem o caráter kitsch ao qual Bollywood geralmente se limita, mas sim a marca de um sistema que designa para cada ser e cada objeto um lugar ao qual eles são obrigados a resignar-se. Tudo o que vier ameaçar esta ordem é considerado como uma transgressão ao realismo.

Leia mais sobre o cinema indiano em uma próxima postagem.

Incredible India! (slogan do governo indiano)

Om Shanti