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04 maio 2007

Cinema Indiano


O cinema como religião

Os mistérios da relação passional dos indianos com seu cinema, que atrai diariamente cerca de 15 milhões de pessoas, e fez com que nenhum outro país tenha exacerbado tanto a extrema porosidade entre a vida real e o cinema

Texto de: Elisabeth Lequeret

Um cinema qualquer, num bairro popular de Madras, no sudeste da Índia. Imenso (mais de mil lugares), como a maioria das 20 mil salas de projeção do país. E repleto. Naquela tarde, ninguém quer perder Pennin Manadai Thottu (literalmente: "Toque o coração de uma mulher"), sucesso cinematográfico cuja trilha sonora invadiu, há várias semanas, as ruas da capital do Estado de Tamil Nadu. Um domingo como tantos outros num cinema na Índia…

Para além do aspecto pitoresco, a situação é representativa da relação que os indianos cultivam com o cinema nacional, na qual o mais intenso fervor convive com o que poderia ser interpretado como impertinência por um observador ocidental, habituado ao silêncio religioso e à penumbra das salas de projeção. Na Índia o povo reage e praticamente interage com o filme.

Ruídos, murmúrios, movimento incessante – quem quer que tenha assistido a uma projeção em Bombaim, Madras ou Bangalore (os três pólos cinematográficos do subcontinente) deve lembrar-se da intensa vida das salas de cinema: comunhão geral e murmúrios de aprovação quando o "mocinho" dá uma lição no rival com um chute certeiro; aplausos quando um pai humilhado dá uma magistral bofetada – finalmente – em sua filha indigna; emoção e fervor nas cenas de canto e dança, revividas pela platéia em transe que, sem hesitar, interpela, parabeniza ou repreende os atores.

Feira de imagens

Se o cinema se tornou a diversão preferida dos indianos é igualmente porque incorpora o fantástico da cosmogonia hindu, restituindo-o depois de operar uma reformulação

A razão de o cinema fazer parte da cultura indiana é, sem dúvida, seu caráter impuro. Desde o início, os indianos adotaram – e adoraram – esta arte capaz de unir, em três horas, representação e narração, dança e música, romance íntimo e calor épico.

O cinematógrafo chegou em Bombaim, a cidade mais ocidentalizada do país. Maurice Sestier, representante dos irmãos Lumière, organizava, no dia 7 de julho de 1896, a primeira sessão de projeção no luxuoso hotel Watson e, mais tarde, no teatro Novelty, no centro da cidade. Poltronas de luxo e assentos baratos, uma cortina para resguardar as espectadoras da curiosidade masculina e uma grande orquestra – que, já naquela época, acompanhava o espetáculo – foram os ingredientes de um sucesso imediato. "A indústria cinematográfica está tão intimamente associada à cultura do nosso país que, cem anos depois da invenção dos irmãos Lumière, os indianos não concebem o cinema como algo que tenha vindo do exterior", confirma o produtor Suresh Jindeel 2. Indianos não admitem que nada tenha vindo do exterior, inclusive a pimenta verde tão comumente usada.

Diversão preferida

A originalidade, principal virtude de um roteiro ocidental, na verdade faria afugentar os indianos

Se o cinema se tornou a diversão preferida dos indianos é igualmente porque incorpora o fantástico da cosmogonia hindu, restituindo-o depois de operar uma reformulação. Cada filme é vivido como uma longa viagem (que dura, na maioria das vezes, mais de três horas e, em todos os casos, sempre mais de duas), na qual se embarca com verdadeiro deleite rumo a obras de ficção que surrupiam, sem escrúpulos, o patrimônio mitológico e lendário. Aliás, a indústria cinematográfica de Mumbai deve aos filmes mitológicos seus primeiros grandes sucessos populares, em particular Raja Harishchandra ("O rei Harishchandra", de Dadasaheb H. Phalke, 1912), primeira ficção nacional.

Este gênero praticamente desapareceu, mas um grande número de roteiros continua a inspirar-se livremente nos grandes épicos tradicionais Ramayana e Mahabharata, entre os quais Rudraksha, versão "ficção científica" de Mahabharata lançada em 2004 pelo produtor Nitin Manmohan. Da mesma forma, o casal recorrente (a moça jovem que cultiva uma devoção inabalável a um amante romântico, passivo e pueril) inspira-se tanto em Majnoun e Leila (o casal mais célebre da literatura árabe) como na cultura indo-persa e na poesia viraha (em sânscrito e em tamil).

Leia mais sobre o cinema indiano em uma próxima postagem.

FOTO: ator indiano Hrithik Roshan

Incredible India! (slogan do governo indiano)

Om Shanti

19 abril 2007

Dos Vedas ao Kama Sutra



Nâmaskar,


Aprenda um pouquinho sobre literatura indiana com este excelente texto abaixo.

Dos Vedas ao Kama Sutra

Tirthankar Chanda

As literaturas indianas são religiosas em sua origem. É graças aos poetas religiosos panteístas, adoradores das divindades da aurora, das montanhas e dos rios, que temos os primeiros textos literários - os Vedas. Seus autores viveram há 3.500 anos, no noroeste do subcontinente indiano. Esse era habitado por tribos indo-europeias que conquistaram toda a bacia do rio Indus. Os Vedas, arquivos da balbuciante civilização hindu e monumento literário, dividem-se em quatro coletâneas de hinos e cânticos (Rig Veda, Yajur Veda, Sama Veda e Atharva Veda) dirigidos as suas divindades tutelares. Literalmente, Veda significa conhecimento”. Um conhecimento de ordem essencialmente mítica e espiritual, devido a crença, entre os hindus, de que as compilações vedicas não são inspiração humana, mas nascidas da própria boca do demiurgo Brahma. Textos revelados que não poderiam se anunciar a não ser em sânscrito, a língua dos deuses.

Durante o período vedico, que dura quase mil anos, o sânscrito torna-se a língua franca, codificada desde o século 6 A.C. pelo gramático Panini. No entanto, mesmo nessa época, a Índia já era multilíngue e a escolha desta ou daquela língua pelos poetas e bardos tinha implicações sociais e religiosas importantes. O Buda, por exemplo, aparece no século 6 A.C. Seu ensinamento era dissonante com o elitismo brâmane. Fazia suas pregações em dialetos populares como o pali ou o prakrit. Tesouro da literatura narrativa mundial, os Jataka, ou as narrativas das vidas anteriores de Buda, (sendo que algumas foram contadas pelo Mestre em pessoa), estão em pali, língua de contestação da rigidez do hinduismo e do sistema de castas. (Buda foi um rebelde da época).

Das louvações a relatos homéricos e um real maravilhoso

Apesar destas contestações, o prestigio do sânscrito como língua da cultura não para de crescer durante o primeiro milênio de nossa era. É a época em que são produzidas as grandes criações da literatura pos-vedica. As epopéias abrem o baile. Surgidos na virada da era crista, o Ramayana e o Mahabharata relatam guerra e paz no crepúsculo dos tempos, assim como as narrativas homéricas. Partindo de eventos históricos ocorridos nos primeiros séculos do estabelecimento das tribos indo-europeias no subcontinente indiano, os dois poemas épicos misturam mito e verdade histórica, real e maravilhoso. Assim, colocam em cena o confronto universal do Bem e do Mal.

Para saber mais sobre o Ramayana, leia a postagem do dia 27 de março neste blog.

O ambiente requintado dos impérios gera o Kama Sutra

A partir do século 4 a.C., a Índia entra na era dos grandes impérios, que dura mais de mil anos. As dinastias sucessivas (Maurya, Kushana, Gupta) centralizam o país e criam condições políticas e sociais favoráveis ao florescimento de uma civilização brilhante. Na corte desses impérios e sua vassalagem, elabora-se uma literatura profana. Desenha-se nos livros sagrados e fundamentais da civilização brâmane (os Vedas), as epopéias, ou os Purana. Conta-se o amor, as festas, as alegrias e as vicissitudes da vida das camadas abastadas da sociedade.

A figura literária marcante desse período é certamente Kalidasa, considerado, o Shakespeare da Índia antiga.

O celebre Kama Sutra, que significa literalmente Aforismos sobre o desejo, também foi escrito ao longo deste período clássico. Foi feito para responder a curiosidade dos jovens aristocratas, e sem duvida para melhor reger a vida sentimental e erótica da época. Interessante é que seu autor, Vatsyayana, que teria vivido entre os séculos 4 e 6, era um asceta.

Incredible India! (slogan do governo indiano)

OM Shanti

10 abril 2006

1ª DELHI



1ª Delhi

A primeiríssima cidade de que se tem notícia aqui foi INDRAPRASTHA, imortalizada no grande épico indiano MAHABHARATA.

Eu confesso que li a versão resumida deste épico. Ele é muito grande, uma espécie de Os Lusíadas de Camões. O que interessa é que Indraprastha existiu de verdade há 3000 mil anos atrás.
Atualmente não resta quase nada de Indraprastha, há somente umas pequenas escavações no sítio arqueológico que fica dentro do Purana Qila.

Desde Indraprastha há 3 mil atrás, até começo do século 12 da era cristã, esta região toda era dominada por imperadores hindus.


1ª DELHI

A primeira Delhi era conhecida por dois nomes, Dhillika e Yoginipura. Ela foi construída no 9º século d.C. por Tomar, e era cercada por uma muralha, chamada Qila Lal Kot, que agora fica próxima ao famoso Qutb Minar.

No século 12 d.C, Dhillika foi conquistada por Prithviraja Chauhan III e ampliada com a construção de outra muralha, Qila Rai Pithora em três dos lados da antiga muralha Qila Lal Kot. Esse foi o fim do reinado hindu nessa região.

A primeira Delhi é mais conhecida pelo QUTB MINAR, mas há ainda hoje em dia ruínas das construções antigas da 1º Delhi ao redor do famoso Qutb Minar. Para quem gosta de história, o complexo do Qutb Minar é um prato cheio, bem cheio!

Na verdade é um COMPLEXO onde fica o Qutb Minar, pois ele não está lá sozinho. Ao redor dele há ruinas de outras construções.

O complexo do Qutb Minar faz parte de todos os city tours; então você não precisa se preocupar pois qualquer excursão que você pegue, com certeza eles te levarão para ver esta preciosidade.

Mas afinal o que é este Qutb Minar que faz parte da 1º Delhi ????

É um minarete em arenito vermelho que tinha como função chamar os fiéis as preces.

FOTO: Qutb Minar (por Ana Dini)

Incredible Delhi!

OM Shanti

08 março 2006

Draupadi continua ...


08/03/2006

Nâmaskar

Feliz Dia Internacional da Mulher para todas nós!

Antes de vir morar na Índia, eu achava essa coisa de Dia da Mulher e de feminismo uma verdadeira bobagem, só agora pude compreender seu verdadeiro significado. Em certas culturas, se a mulher não se impuser e se não for até certo ponto radical, é tratada como um objeto, como bosta!

Andava tudo calmo por aqui, de repente tivemos um pequeno terremoto no estado de Gujarat, sem vítimas; e 2 ataques terroristas a bomba na cidade sagrada de Veranasi (antiga Benaras).

Infelizmente os ataques terroristas mataram 16 pessoas e feriram e aleijaram dezenas de outras. O alvo principal dessa vez foram os devotos de Hanuman (o Deus hindu Macaco). Uma bomba explodiu na estação de trem e a outra no Templo Sankat Mochan. Mais uma vez cenas de gente ensangüentada, morta, em fim um horror!

Ricardo meu querido ainda bem que você saiu de Veranasi umas horas antes!

Uma moça de 18 anos que foi comprada por uma família de Haryana foi assassinada pelo marido pois se recusou a ter sexo com os irmãos dele. Não se surpreenda não, isso é normal aqui na Índia e consta inclusive do épico indiano Mahabharat. No próprio Mahabharat, Draupadi “servia” aos cinco irmãos pandavas.

Haryana, um estado ainda rural que tem somente Gurgaon como cidade um pouco mais desenvolvida, é conhecido pelo seu alto índice de infanticídio feminino. Como eles matam os bebezinhos femininos, há uma grande falta de mulher no mercado. As famílias de Haryana então compram uma moça (as vezes uma menina) em outro estado e a casam com o filho mais velho, mas ela tem que servir também aos outros irmãos do marido.

Centenas de mulheres vivem assim por aqui, sem saber na verdade qual é o pai de seus filhos, seguindo uma tradição de mais de 3 mil anos. Como esta moça se recusou a participar dessa tradição, foi assassinada!

Incredible India!

Om Shanti

31 julho 2005

Mumbai x New Delhi


Nâmaskar

Aqui vai uma rápida comparação entre Mumbai (antiga Bombay) e New Delhi (Nova Delhi).

New Delhi é a capital política da Índia e Mumbai é a capital financeira. Fazendo uma analogia, seria algo como Brasília e São Paulo.

New Delhi possui atualmente, uma população de 12.8 milhões de habitantes em uma área de 1483 Km² e as principais línguas faladas são o inglês e o hindi.
Delhi é um distrito federal tal como Brasília e fica situada entre os estados de Haryana e Uttar Pradesh (UP).

Delhi é absolutamente rica em história datando de 3 mil anos A.C. onde inicialmente era conhecida pelo nome de Indraprastha como aparece no épico indiano Mahabharata.

Eu amo a parte histórica de Delhi e poderia escrever várias páginas sobre isso, mas o melhor mesmo é vivênciar essas ruínas tão lindas, vê-las, fotografá-las e tocá-las!!!

Infelizmente a conservação do patrimônio histórico não parece ser prioridade por aqui. Enquanto os turistas estrangeiros olham com respeito para esses monumentos tão antigos, os indianos escrevem seus nomes nas paredes, queimam as paredes com incensos, gritam, arrancam pedaços, jogam lixo, fazem xixi e outras atrocidades. Os próprios indianos destroem suas riquezas históricas. Lamentável :(
Outra coisa de se lamentar é que o ministério do turismo de Delhi elegeu apenas meia dúzia de locais históricos para promover, enquanto o restante é ignorado. Eles preservam e conservam essa meia dúzia de monumentos e as agências de turismo fazem o mesmo e levam os turistas apenas e tão somente para esses locais.

Mumbai é o novo nome da antiga Bombay, pois é, nem ela escapou a paranóia indiana de trocar os nomes das cidades, ruas etc. Os nomes são trocados, mas as condições de vida da população permanecem as mesmas!


Indianos de todos os estados vão para Mumbai em busca de uma vida melhor, aos moldes do que ocorre com São Paulo; por isso Mumbai transformou-se numa grande favela.


Sua população é bem maior do que a de New Delhi com 16.4 milhões de habitantes espremidos em apenas 440 Km²!!! Mumbai fica em uma ilha.

Mumbai é a cidade mais rica e próspera da Índia, apesar de ficar em ilhas na costa do estado de Maharashtra. As ilhas são conectadas por pontes entre si e com a costa. As línguas mais faladas são inglês, hindi e marathi.

Mumbai é o único lugar da Índia onde não falta água e eletricidade. Seu sistema de trens urbanos é muito eficiente e a infra-estrutura a melhor do país. Mumbai não é vista como local histórico e não é considerada um lugar turístico como New Delhi.

Mumbai é a cidade considerada mais segura para as mulheres. Os níveis de estupro e violência contra as mulheres é bem menor comparando-se com o restante do país e especialmente com Nova Delhi.
 

Atualmente o número de divórcios em Mumbai tem aumentado drasticamente pois as esposas se recusam a ter sexo na frente dos sogros, cunhados e crianças.
Esclarecimento: na cultura indiana, quando uma mulher casa, ela tem que morar na casa dos pais do marido. O problema habitacional em Mumbai é gravíssimo e o aluguel extremamente caro.

FOTO: Mumbai

http://www.indiagestao.blogspot.com/

Incredible India! (slogan do governo indiano)

Om Shanti