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23 abril 2008

Ibirá na Índia - Parte 14

( Nos fundos da universidade em Ashta, casas extremamente simples de agricultores familiares)
( A rua em frente à casa em que mora Sankalp e seus amigos, em Ashta)

Namaskar!
Finalmente contarei como foi minha última semana na Índia! A Sandra acaba de me liberar para escrever, agora que a situação melhorou, graças a Deus. Este relato, embora esteja sendo publicado quando eu já estou de volta ao Brasil, foi escrito em papel na minha última noite de Índia, do dia 14 ao 15 de abril, em Mumbai. Mas para alegria geral, ele não será o último! Meus escritos sobre minha última semana de Índia tiveram que ser divididos em dois relatos, então encerrarei minha participação no blog da Sandra no Ibirá na Índia - Parte 15.
Bom, vamos lá. Na terça-feira, dia 8 de abril, peguei o trem na New Delhi Station, às 17hs, rumo a Mumbai. Estava deixando a capital política indiana para chegar na capital financeira, 23 horas depois. Sim, vinte e três horas dentro de um trem indiano. Justamente por isso, eu estava torcendo para que as pessoas que ficassem no meu "nicho" no trem fossem no mínimo, digamos, comunicativos. No entanto, embora não fossem mal-caráteres, eles não falavam inglês... até tentaram se comunicar, mas o máximo de interação que tiveram comigo foi um doce que me deram. Enfim, fiquei lendo a maior parte do tempo.
Embora meus planos fosse ficar uma semana em Mumbai, meus amigos do começo da viagem - Sankalp e Pradeep - ao saberem que eu estaria relativamente perto deles mais uma vez, insistiram para que eu os revisitasse. Aceitei prontamente o convite, até porque uma semana de Mumbai seria exagero. Sendo assim, imediatamente ao desembarcar do trem em Mumbai parti para uma estação de ônibus, onde embarquei para Pune encontrar o Pradeep.
Cheguei lá por volta das 21hs. Pradeep encontrou comigo e fomos jantar num restaurante simples de comida do Rajastão (um lugar onde estrangeiro nenhum tinha ido e estavam todos felizes lá dentro). Comemos e fomos ao cinema assistir a um filme de Bollywood chamado Shaurya. Era em Hindi e sem legenda, então não entendia nada e o Pradeep ficava me falando as coisas mais importantes; mas deu pra perceber que o filme é sério e parece ser bom. Ele trata da questão da Cachemira e nem tem o tradicional song-and-dance de Bollywood. Ah sim, mas não posso esquecer de dizer uma coisa que aconteceu completamente inesperada e que ninguém nunca tinha me dito e nem sei se em toda a Índia é assim. Antes de o filme começar, mas após os trailers e comerciais, apareceu uma mensagem na tela e de repente todos levantaram. Levantei junto, claro, e eis que começa a tocar o hino nacional indiano! Somente após isso que o filme começou.
Bom, no dia seguinte o Pradeep me levou para conhecer a Universidade de Pune, uma das melhores da Índia e com o maior número de estrangeiros matriculados. Fomos até fuçar na secretaria para ver se há brasileiros ali, mas a resposta foi não... fomos inclusive visitar o pequenino departamento de geografia da universidade, onde me convidaram para fazer a pós-graduação, mas confesso que não fiquei muito animado, não...
Depois disso, no final da tarde, peguei um ônibus, novamente, rumo a Ashta, a cidade da faculdade do Sankalp. Para quem leu os meus primeiros relatos, eu havia ressaltado a questão do distanciamento entre garotos e garotas. Dessa vez, porém, houve uma sensível mudança. Enquanto eu estava em Delhi aprendendo a ser malandro, a faculdade do Sankalp promoveu uma excursão com os alunos e, graças a isso, garotos e garotas se enturmaram mais e eu percebi isso claramente. Ainda assim, por ordem da diretoria, na sala de aula os meninos ficam de um lado e as meninas de outro.
Fiquei três dias em Ashta com Sankalp e seus amigos. Não fizemos nada de especial, não fomos a nenhum outro lugar. Apenas vivi a vida de garotos indianos que estudam numa não reputada faculdade de engenharia, moram numa república e não têm muito o que fazer na cidade - Ashta não passa de uma vila rural, na verdade. Novamente eu estava na Índia tradicional, onde, diferentemente de Delhi e do que vi depois em Mumbai, os costumes e tradições da sociedade em volta falam mais alto, embora os estudantes sonhem em quebrar os costumes. Mesmo assim, a cerveja não faz parte do imaginário deles, ainda - no final da tarde, o famoso chá indiano. Num desses momentos de chá ocorreu uma coisa bem curiosa, quando começamos a filosofar sobre as religiões no mundo. O mais curioso nisso é que estávamos eu (a parte cristã da discussão, já que sou de um país cristão), Sankalp, que é hindu, e seu amigo Mushtaq, que é muçulmano. A conversa estava tão empolgante que tivemos que nos auto-interromper senão perderíamos a hora...
E sim, estando em Ashta, embora parte dos alunos da faculdade já me conhecessem, eu voltei a ser um completo ET. Dentro da faculdade eu tinha que parar a cada metro, pois toda hora vinha um estudante querendo saber quem eu era, por que estava ali etc... Um dos funcionários da faculdade, cuja esposa prepara marmita sob encomenda para os alunos, insistiu para que eu fosse à sua simples casa para tomar um café da manhã. Não recusei, claro, e na manhã seguinte fui a sua casa, realmente bem simples. Tomamos chá com biscoito, conversamos um pouco (ele não falava inglês direito, mas Sankalp estava junto e serviu de tradutor) e fomos embora.
Apenas para relembrá-los, enquanto estive em Pune e Mumbai com meus amigos eu revivi a vida indiana com tudo que tive direito. Ou seja... tudo aquilo que vocês já sabem em relação às refeições e ao uso do banheiro...
Bom, no sábado à noite, dia 12 de abril, peguei um ônibus para Mumbai, finalmente. Um dos amigos do Sankalp veio junto, o que me deu mais conforto, já que ele poderia me ajudar quando chegássemos em Mumbai. A viagem durou cerca de sete horas e chegamos na maior cidade indiana assim que o sol raiou. Mas, como já muito me alonguei aqui, fica para o próximo depoimento!
Om Shanti Om

26 março 2008

Ibira na India - Parte 11

(Na vila de Fatehpur, quando errei o caminho para o terminal de onibus)

(Taj Mahal, no meu unico dia nublado de India)

(Vista da casa do meu amigo Roni)

Bom, como disse, nesse relato descreverei mais detalhadamente algumas outras experiencias que tive durante a minha estada na capital indiana. Eu cheguei em Nova Delhi no dia 17 de fevereiro, e minha estada na capital terminara na proxima segunda-feira, dia 31 de marco. Ou seja, terei ficado um mes e meio nessa cidade, tempo suficiente para visitar quase todos os lugares (que sao muitos por aqui), mas, principalmente, tempo excelente pra conhecer distancias, precos, facilidades etc... como havia dito no outro relato, acabei pegando "as manha".

Enfim, deixe-me comecar pelo meu amigo Rohnit, mais conhecido por Roni. O Roni mora aqui em Delhi, mas em um bairro comum periferico, classe media baixa, mais pra baixa, e me convidou pra ir visita-lo em sua casa. Ele, muito educado, veio buscar-me no local em que eu estava hospedado e me levou ate seu bairro. Passei o dia com ele e sua familia, ate que, a noite, fui convidado para dormir la. Pensei: "Oba, vida indiana de novo!". E pensei mais um pouquinho: "Coco no buraco, limpar-se com a mao, comida indiana sem talher e mais um monte de outros detalhes..."... hhmmm, aceitei o convite, claro. Isso ainda era uma quinta-feira e acabei ficando na casa dele ate o domingo daquela semana, fazendo tudo de novo que uma verdadeira vida indiana recomenda. Mas a experiencia de vida indiana na capital eh um pouco diferente. Embora eles nao sejam de familia rica, nada disso, viver na capital, moderna, exemplar, faz a diferenca. Logo no primeiro dia fomos ao cinema e pegamos metro. Foi a primeira vez que usei metro e fui ao cinema na India. O metro eh absolutamente excelente, absolutamente. Mas claro, fui revistado na entrada, como todos devem ser, alem de ter sido revistado na entrada do cinema. La no cinema, alias, o policial ainda me pediu para ligar minha maquina fotografica e tirar uma foto pra provar que minha maquina fosse realmente uma maquina. Mas tambem, se fosse uma arma eu teria matado meu amigo, coitado, que estava bem na minha frente. Enfim, era apenas uma maquina fotografica.

Nos outros dias, todos os dias no final da tarde, o Roni ia na academia com seu primo, mas eu preferia ficar na casa dele. Os jovens da minha idade, principalmente das cidades grandes, estao todos indo na academia desde que os atores de Bollywood comecaram a aparecer gostosoes e sem blusa nos filmes nacionais. E tambem gracas ao filmes (mas claro, nao somente) as meninas indianas das grandes cidades tambem estao comecando a mudar o comportamento - e em alguns casos ate demais! A propria irma do Roni, por exemplo, pediu para tirar uma foto comigo, quando fomos ao cinema, e na hora da foto ela colocou as maos nos meus ombros! Foi uma grande surpresa pra mim, ja que as meninas indianas que tinha conhecido ate entao mal chegavam perto... e fora que ela vestia uma roupa plenamente ocidental, como grande parte das meninas de Delhi.

Bom, aproveitando o assunto, outro susto que levei em Delhi foi em relacao aos casais novos, de namorados. Os monumentos aqui na capital costumam ser em grandes areas, tipo parque, com gramados etc. Por conta disso, acabei vendo em todos esses lugares diversos casais de jovens sentados aos pes de arvores, o que era muito dificil de ver nos outros lugares que eu estava na India. Mais susto ainda levei quando vi alguns casais inclusive se beijando (o famoso selinho, claro, passar disso ja eh demais tambem...). Mas devo ressaltar que isso ainda so ocorre nesses locais, parques e monumentos, nao nas ruas e outros espacos publicos. Alias, muitos desses monumentos historicos de Nova Delhi foram apresentados para mim por uma nova amiga que fiz, indiana, que fala portugues. E fala um portugues incrivelmente bem, sem sotaque, alem de ela ser tambem dessa nova geracao de indianos ocidentalizados.

Agora deixe-me contar minha experiencia em Agra, onde fica o Taj Mahal... decidi que ia pra la de trem e nao fiz reserva, pois nessa epoca do ano a procura ja nao eh tao grande. Enfim, logo cedo, as seis e meia da manha, fui pra estacao e pedi o bilhete pra Agra no guiche. O moco falou que era 64 rupias (3 reais, mais ou menos), o que achei muito estranho, ja que Agra fica a 200km da capital. Pensei que pudesse ser o ticket do "general coach", o vagao economico, sem lugar marcado, sem conforto, sem ar condiconado, sem nada, onde so vai o povao. Pensei, pensei, pensei... e aceitei comprar esse ticket. Coitado de mim. Fui pra plataforma e nao tinha a menor ideia de onde parava esse tal general coach. O trem atrasou duas horas e, quando chegou, o vagao que eu deveria entrar estava bem longe de mim. Quando cheguei nele, coitado de mim de novo, ja nao havia mais absolutamente lugar nenhum, nem pra sentar e nem pra ficar em pe. Fui pro vagao do lado, de lugares marcados, e fiquei em pe, perto da passagem pro meu vagao (na India da pra passar de vagao pra vagao por dentro do trem). Depois de o trem comecar a andar passou o cara que confere os tickets. Na hora de ele conferir o meu, ele viu que eu estava no vagao errado e mandou eu ir pro outro; eu retruquei dizendo que nao havia absolutamente espaco nenhum pra mim, mas ele nao teve do e disse "va!". Eu simplesmente fui ate a passagem entre os dois vagoes, no maximo que pude ir, peguei uma folha de jornal da minha mochila, pus no chao, e sentei. Resumindo, fui pra Agra sentado no chao entre dois vagoes, durante cinco horas. E nao pensem que os indianos que estavam no vagao de lugares marcados gostaram disso. Eles tiveram do de mim, pediram que eu fosse sentar la com eles, que eu era estrangeiro, e estrangeiro na India eh como Deus, que isso que aquilo, mas eu nao podia fazer nada, havia pago apenas 3 reais...

Quando cheguei em Agra fui ver o Taj Mahal, logico. Qual nao foi minha surpresa (alem de ter de pagar injustas 750 rupias, ou mais de 35 reais) quando me comecam a cair gotas do ceu. Desde que estava na India eu mal tinha visto nuvens, e de repente, no dia de ver uma das novas sete maravilhas do mundo, o ceu me resolve chover. Mas por sorte nao passou de um chuvisco e pude ver o Taj. Mas o que mais gostei da viagem para Agra foi ter ido a Fatehpur Sikri, 40km dali, um complexo de palacios, simples ate, mas extremamente bem conservados em uma area relativamente grande, onde um dia foi a capital do rei Akbar, por meros doze anos, antes de ele se transferir para Agra.

De Fatehpur Sikri eu queria ir para Mathura, a cidade de nascimento do deus Krishna, e resolvi fazer o que nao esperava fazer: pegar onibus local, onde so tem coisa escrita em Hindi, e estrangeiro raramente tem coragem de fazer. Os onibus saiam da vila local, extremamente pobre, e era apenas descer ate ela e virar no terminal de onibus. E quem disse que eu virei pro lado certo? Virei pro lado errado e me meti nas ruazinhas apertadas e lotadas de moscas das tipicas vilas antigas da India. Andei quase dois quilometros, ainda achando que o lado era certo; e em cada lojinha eu ouvia um “hello!” pra mim. Acabei perguntando pra um menininho onde era a parada de onibus, e ai que ele me disse que era pro outro lado. Voltei tudo e encontrei o terminal, quando descobri que la nao parava o onibus que eu precisava. Fui ate o local certo e depois de um tempo passou o onibus e entrei. Tive que descer em outra cidade pra trocar de onibus, ate que, finalmente, acabei chegando em Mathura. Pegar onibus local sozinho ate que nao foi tao dificil; pedindo ajuda pras pessoas certas funcionou direitinho. E ainda, depois de ver a cidade de Krishna, voltei para Delhi de novo de onibus local, pagando o equivalente a 4 reais, para percorrer de novo 200 km.

Minhas experiencias mais relevantes em Delhi encerram-se por aqui. Semana que vem partirei para ver os pes do Himalaia e nao sei se conseguirei mandar relato tao rapido. Mas assim que puder mandarei minhas experiencias dessa terceira etapa de minha viagem, nos meus ultimos 15 dias de India.

Om Shanti Om

17 março 2008

Ibira na India - Parte 8

(Buda, cavernas de Ajanta, Maharashtra)
(Daulatabad Fort, Maharashtra)

(Ranguli feito para mim em frente a casa)



Apos eu e Pradeep sairmos de Shirdi, por volta do meio dia, fomos para a vila/cidade em que moram os tios dele. Embora em quilometros essa vila nao fosse tao distante, levamos pouco mais de seis horas pra chegar la, pois nao so pegamos onibus local, que para em todos os lugares possiveis e nao eh tao rapido e eficiente quanto o Volvo, mas tambem passamos por estradas muito estreitas e sinuosas. Quando chegamos na cidadela ja era noite. Fomos andando pelas ruelas da parte antiga ate chegarmos em frente a uma casa um pouco maior que as demais – era a casa dos tios de Pradeep. Na rua, em frente a escadinha que dava na varanda da casa, uma surpresa: um ranguli havia sido feito especialmente para dar as boas vindas para mim. Ranguli eh uma especie de mandala feita com areia fina colorida, geralmente desenhada na entrada dos lugares em ocasioes especiais para dar boas vindas aos convidados, por exemplo.

Ao entrarmos todos nos esperavam. Imediatamente trouxeram o famoso cha indiano (ainda bem que, pra mim, esse cha eh gostoso...), enquanto comecei a ser alvo de perguntas triviais e que seria a enesima vez que estava respondendo. De onde voce eh? Por que esta na India? Por quanto tempo? O que voce mais gostou ate agora? E a comida indiana, gostou? O que voces comem no Brasil? E por ai vai...

Pouco depois teve a janta, no chao e com as maos, claro. Apos jantarmos o Pradeep me levou para a casa de outra tia dele, ali pertinho. Era uma casa muito pequena, na verdade porque havia sido dividida ao meio para dar espaco a clinica da tia, que eh medica. Na casa havia apenas mais o marido e o filho deles, Rakul, de 14 anos. Serviram mamao picado pra mim, com mais uma chicara de cha indiano. Enquanto isso, o marido da tia me perguntou se eu conhecia o mamao e se tinha tanta fruta no Brasil quanto na India. Disse que sim, e que na verdade no Brasil ha muito mais variedade de frutas e vegetais do que na India... dessa vez nao consegui segurar. O filho deles so me ouvia, mas nao falava nada; mas isso ficou assim ate ele descobrir que eu era formado em Geografia, a materia preferida dele. Imediatamente ele chegou com dois atlas escolares para me mostrar os mapas tematicos da India, e me explicou tudo. Depois quis que eu explicasse sobre o Brasil, o que produziamos etc... experiencia simples mas absolutamente inesperada.

Fomos dormir. No dia seguinte acordariamos cedo pois teriamos mais um dia corrido. Por sorte o tio do Pradeep emprestou o motorista dele para a gente e assim Rakul pode vir conosco, no carro velho da decada de 50/60. Antes de sairmos de casa, a tia do Pradeep veio ate nos colocar um tilak em nossa testa e deu-nos uma nota de 50 rupias para cada um - eh um ritual para desejar boa viagem. O primeiro lugar que paramos foi o Daulatabad Fort. Eram ruinas de uma cidadela murada dos anos 1600, mas que foi muito interessante de ver, principalmente por seu avancado nivel de seguranca para a epoca. Mas como muitos lugares do genero na India, essas cidadelas viram lugares fantasmas logo apos o rei morrer, principalmente porque cada novo rei queria construir a sua propria cidade, com seu proprio nome. O bom eh que agora, no seculo XXI, temos muuuuitas coisas a ver...

Apos o Daulatabad Fort fomos para um dos lugares mais impressionantes e valiosos que vi ate agora na India: as cavernas de Ajanta. Ajanta eh um conjunto de 29 cavernas inteiramente esculpidas na rocha por monges budistas, sendo algumas escavadas para serem especies de monasterios, enquanto outras eram locais de meditacao. Os mais antigos datam do seculo II antes de Cristo e os mais recentes do seculo VII depois de Cristo. Sao os mais antigos, porem, os mais importantes, nao so pela data, mas principalmente por conterem paineis pintados com um detalhismo impressionante, contando a historia de Siddharta Gautama e depois de ele virar Buda. Tambem impressionou o fato de o local estar, agora, extremamente bem conservado e com excelentes estruturas de preservacao e iluminacao interna para nao prejudicar os murais.

Depois de sairmos de Ajanta fomos para Jalgaon, onde dormiriamos na casa de outros familiares do Pradeep. No caminho passamos por estradas de novo estreitas e sinuosas e cruzamos diversas vilas extremamente pobres. Isso, na verdade, nao era novidade pra mim. Novidade foi quando, pouco antes de cruzar uma dessas vilas, apos o sol baixar, senti um forte cheiro de coco. Olhei para a beira da estrada e percebi inumeras pessoas agaixadas, em ambos os lados da pista, fazendo as suas necessidades ali mesmo, cada qual com seus respectivos baldinhos com agua. O mesmo se repetia do outro lado da vila, e em todas as outras vilas que cruzei naquela noite, antes de chegarmos em Jalgaon.

Jalgaon eh uma cidade grande. Quando chegamos na casa dos outros familiares do Pradeep, adivinhem, serviram cha indiano, claro. Era a casa mais rica que estava ficando ate entao na India, nao muito grande mas com todo o conforto; mesmo assim, logicamente, havia cama na sala, como (quase) sempre. Jantamos e fomos dormir. No dia seguinte eu deveria estar ao meio dia na estacao de trem mais proxima dali, pois, finalmente, partiria para Delhi, mais de mil quilometros dali. Quando acordei, no sabado, dia 16 de fevereiro, estava com dor de barriga. Pensei: “Puxa vida, sera?”. E sim, foi, estava com diarreia bem no dia em que ficaria 17 horas dentro de um trem. Nao contei pra ninguem na casa. As 11 da manha me deram almoco, que tive que comer correndo e estava sem fome, alem de tudo, por causa da dor de barriga. Depois de 16 dias de India os germes hindustanis me venceram.

Enfim, fui a estacao e peguei o trem, que atrasou so um pouco. O trem era do mesmo estilo que o primeiro que eu havia pego de Mumbai para Chiplun, com lugar para dormir em nichos de seis pessoas. No lugar em que eu estava nao havia ninguem com cara de que quisesse conversar. Porem, por sorte, um rapaz perguntou se eu nao podia trocar de lugar com ele, pois assim ele poderia ficar junto do amigo. Disse que sim, sem problemas; afinal, minha unica preocupacao ali era minha dor de barriga... acabei tendo sorte, no final de contas. No nicho em que acabei ficando tinha um senhor com seus dois filhos (um homem e uma mulher, ambos com mais de vinte anos). Esse senhor, depois de um bom tempo, acabou puxando assunto comigo e disse estar preocupado, pois notava que eu nao estava comendo nada – eles comiam alguma coisa a cada estacao que o trem parava. Apenas disse que nao estava com fome e agradeci a preocupacao. Ele perguntou mais algumas coisas basicas, mostrou que sabia ate alguma coisa sobre o Brasil, mas ficamos nisso. Apos mais algum tempo, de repente, quando paramos em alguma estacao qualquer, ele desceu e voltou com um cacho de uva e uma mexirica pra mim. Embora sempre me recomendassem nao aceitar nada de ninguem nos trens, nao recusei as frutas e comi. Mais um tempinho passado e o mesmo senhor, de novo, comprou pra mim um cha indiano que passam vendendo dentro do trem. Agradeci, ate envergonhado, pois assim parecia que eu era um pobre coitado; mas a verdade eh que indiano, quando eh educado e atencioso, ele sabe fazer isso direito, realmente. Depois de mais um tempo ajustamos nossas “camas” e dormimos.

As sete da manha do domingo seguinte, 17 de fevereiro, estava eu chegando em Nova Delhi, finalmente. Agradeci imensamente a preocupacao daquele senhor, despedi-me e fui embora, para mais uma etapa da minha viagem.

10 março 2008

Ibira na India - Parte 7


Terminei meu ultimo relato dizendo que eu e Pradeep partimos juntos para visitar alguns lugares famosos do Maharashtra. Naquela manha nos pegamos um trem perto da casa dele, em direcao a rodoviaria de Pune. Era trem urbano – primeira vez tambem com essa experiencia –, mas bem diferente dos do Brasil. Nos iriamos pegar onibus normal, aqueles do Maharashtra que ja tentei descrever antes – nao seria um Volvo dessa vez. Alem disso, para o local que iriamos primeiro levariamos algumas varias horas pra chegar, ja que nao tinha estrada reta e direto para la, alem do onibus nao ser dos mais velozes.

Chegamos em Tryambakeshwar depois de viajar o dia inteiro e trocar de onibus uma vez em algum lugar no meio do nada. Nessa parada em algum lugar no meio do nada nos tambem jantamos; comi comida de beira de estrada indiana, alem de beber a agua sabe Deus vinda de onde. Ja tinha feito isso antes com os meninos, na verdade, mas nessa viagem com o Pradeep tive que me sujeitar a situacoes bem mais, digamos, de risco para um estrangeiro nao acostumado as condicoes locais – refiro-me aos germes locais etc. Eu nao poderia seguir as recomendacoes recebidas – principalmente por parte de meus pais – de nao beber agua que nao fosse mineral e de tomar cuidado com a higiene, por exemplo. Nao que eu nao tomasse cuidado com a minha propria higiene, mas comendo nessas condicoes que comi, por exemplo, o cuidado com a higiene estava fora do meu alcance. E me recusei a pedir agua em garrafa se em todos os lugares que entramos na India nos servem um copo de agua sem que se cobre por isso.

Bom, voltando a Tryambakeshwar... era ja meia-noite e a cidade dormia. Fomos parando de pousada em pousada procurando vaga e nao encontravamos. A cidade eh um lugar extremamente sagrado no hinduismo, especialmente para os seguidores de Shiva; alem desse existem outros onze templos assim (com uma jyotirlinga) na India inteira. Mas alem disso, nessa cidade nasce o rio Godavari que, segundo diz a lenda, eh a manifestacao do rio Ganges no sul, o que da a ele o status de segundo rio mais sagrado do pais. Por isso o local vive cheio de peregrinos e com todas as vagas ocupadas, mas acabamos encontrando a nossa.

No dia seguinte cedinho ja saimos da pousada para ir ver o templo. Ja estava cheio antes das sete da manha. A verdade eh que pulamos uma etapa importante. O correto seria banhar-se nas nascentes do Godavari no local feito especialmente para isso, fora do templo, para entrar la ja purificado. Nao fizemos por dois simples motivos: meu amigo quis poupar-me e estava fria aquela manha. Depois de vermos o templo ja partimos dali e fomos direto a Nasik.

Nasik tambem eh banhada pelas aguas do Godavari e eh, de novo, um local muito sagrado para o hinduismo, mas dessa vez nao so por conta do rio. La ocorre um dos quatro Kumbh Mela que acontecem a cada doze anos na India. A lenda diz que um dia os demonios e os deuses fizeram um acordo e resollveram parar de brigar. Para tanto iriam dividir o nectar sagrado (amrit); quando ele chegou os demonios roubaram o nectar e, por doze dias (doze anos terrestres), demonios e deuses lutaram . Na batalha quatro gotas do nectar cairam sobre a terra – e sao, portanto, os quatro lugares em que ocorre o festival do Kumbh Mela a cada doze anos. Para se ter uma ideia da importancia desse festival, o ultimo que teve em Nasik (2001) reuniu, durante pouco mais de um mes de duracao, cerca de 70 milhoes de pessoas. Isso porque esse nao eh o maior. Alem do Kumbh Mela e do Godavari, a cidade tambem tem outra importancia: uma das lendas diz que a deusa Sita, esposa do deus Rama, foi sequestrada ali em Nasik, e sua casa esta preservada ate hoje.

Enfim, lendas aparte, o que importa eh que, carregando malas, andamos pela cidade e fomos em todos os pontos importantes. Inclusive lavamos pes, maos e rosto nas aguas do Godavari, onde outras pessoas faziam suas oferendas e rituais. Pouco a frente do rio, ja fora da area de purificacao, mulheres lavavam suas roupas. Ao lado, uma feira livre no chao. Vacas andando no meio. Muito barulho. India.

De Nasik partimos para um templo de Durga no meio de um penhasco no meio do nada. Fomos de onibus ate o alto de uma montanha, onde paramos na vila. De la tivemos que escalar o penhasco numa escadaria, ate atingir o templo. O diferente disso eh que tinhamos que usar um capacete para subir a escadaria, pois nao ha muito tempo algumas pedras soltaram-se do penhasco e destruiram parte do templo. Por sorte ninguem morreu, mas o templo parecia ter sido bombardeado.

De la iriamos direto para Shirdi. No entanto, pegamos o onibus errado e tivemos que parar num entroncamento de estrada no meio do nada. Havia uma barraquinha preparando alguma coisa qualquer, bem do tipo de que turista nenhum se arriscaria a comer em momento algum da vida. Pois Pradeep comprou um pouco daquela coisa qualquer e comemos. Eu estava mesmo com fome. Finalmente o onibus correto passou e fomos pra Shirdi, onde, de novo, so chegamos tarde da noite. Shirdi eh a cidade do primeiro e original Sai Baba (morto em 1918), e que uma parcela enorme da populacao indiana eh devota. O outro Sai Baba (Satya Sai Baba), que diz ser reencarnacao do primeiro, eh mais famoso so no ocidente. Na India eles cansaram de suas promessas nao cumpridas, de seus milagres desconstruidos, de sua filosofia que nao bate com a do primeiro. E devo dizer: ate o presente momento, o templo com mais devotos que vi ate agora na India sem ser em celebracao especial foi o do Sai Baba de Shirdi.

Quando chegamos na cidade nao encontramos vagas em absolutamente hotel algum. Havia um enorme centro de recepcao para os devotos, da propria instituicao mantenedora do templo, que possuia inumeros leitos, mas qualidades das mais basicas possiveis. Era nossa ultima opcao. Ao chegarmos la, juntos com familias inteiras que vinham de longe, disseram-nos que nao havia vagas para dois. Porem, ao descobrirem que uma pessoa (eu) estava vindo de tao longe para ver o templo do Sai Baba, disseram que poderiam dar um jeitinho. E deram o tal jeitinho; arranjaram um quarto pra gente que seria pra quatro. Coitada da familia de quatro pessoas que ficou sem vaga... dormimos em cama bem simples, mas suficiente para descancarmos. No dia seguinte cedo fomos ao templo ter o darshan do Sai Baba (em sanscrito, essa palavra, darshan, significa “ter a visao do divino”, ou seja, nesse caso, ver a estatua do Sai Baba no altar do templo), o que durou segundos, pois, pelo tanto de gente, tinhamos que ser muito rapidos. E dali, de novo, partimos para outro lugar, que vai ficar para o proximo relato, eh claro.

Om Shanti Om
Fotos: Vista do templo de Durga; Nasik, as margens do rio Godavari.

21 fevereiro 2008

Ibira na India - Parte 4

Hoje meu relato nao tera nada de "primeiras experiencias" e situacoes engracadas. Apenas irei expor um pouco do que pude ver em mais um dia de Incredible India, como diz a Sandra.

Ainda no primeiro dia na vila de Parshuram o meu amigo havia comentado que a India, alem das milhoes manifestacoes de Deus, tambem tem mais outras milhares de linhas filosoficas que tenatm explicar a vida do ponto de vista racional/cientifico. Ele resolveu nos levar, entao, a um casal que estava la para disseminar a filosofia do Agnihotra. Ele disse que pela vila ter um relativo fluxo de turismo, muitas pessoas desse tipo vao ficar um tempo por la. Bom, encontramos com o casal, como eles pediram, as 18:36. Era a hora exata em que o sol se poria naquele dia. Nessa hora um ritual eh realizado, com o mais absoluto silencio, em que umas plaquinhas de algum material inflamavel sao corretamente dispostas em um objeto que, segundo eles, eh uma piramide invertida, e enfim tudo eh queimado ao som de mantras. Eles dizem que a pratica diaria deste ritual - ao nascer e por do sol - purifica a pessoa e os ambientes, pois, de forma simplificada, a veneracao do fogo pode proporcionar o nosso retorno a forca primordial. E para dar a essa filosofia um carater cientifico, eles fazem testes por exemplo com a agricultura, em que uma plantacao que recebe a Agnihotra tem melhor desempenho que a que nao recebe o ritual. Enfim, verdadeiro ou nao, meu amigo mais uma vez deu-me a oportunidade de conhecer mais uma faceta da India. E eh importante dizer que a India REALMENTE tem muitas filosofias acontecendo ao mesmo tempo, seja ajudando-se entre si, seja falando extremamente mal uma da outra. Essa eh a India.

No dia seguinte meu amigo nos levou pra conhecermos a escola privada que existe ali do lado da vila. A escola eh excelente, mas o que mais me chamou a atencao foi ver as criancas todas juntas no ginasio cantando os mantras da manha. Nao quero fazer julgamentos sobre isso, mas o que gostei foi de ver como as criancas cantavam bem e como elas pareciam felizes fazendo aquilo. Depois disso foram todas para suas respectivas classes. Conversamos um pouco com alguns professores que meu amigo apresentou, tomamos o famoso cha, e fomos embora.

Naquela tarde fomos as montanhas. Nos acompanharam uma professora da escola particular e dois meninos da vila. Nessa epoca do ano tudo esta muito seco pois nao chove desde as ultimas moncoes, em outubro/novembro, mas nos contaram que durante a epoca de chuva tudo eh extremamente verde, com rios e cachoeiras. Eh isso que da fama tambem ao lugar e atrai turistas que buscam pelo que no Brasil chamamos de ecoturismo. Quando estavamos no topo da montanha paramos pra descansar. Um dos meninos, de 16 anos, havia trazido uma flauta e comecou a tocar. Poucos minutos depois um veado (animal) passou correndo entre nos, o que nos disseram ser a coisa mais rara de acontecer, pois restam pouquissimos na regiao. Nao deu nem pra tirar foto.

Depois prosseguimos pela montanha e chegamos nas ruinas de um pequenino templo de Shiva perdido no tempo. Mais a frente havia umas minusculas cavernas escavadas em rochas no chao, grandes o suficiente apenas para ficar sentado dentro delas. Em cada uma havia um espacozinho para um altar, mas ja nao havia estatuas de deuses ali. Disseram-nos que os arqueologos supoem que aquelas cavernas possam ser do tempo dos Pandavas, ou seja, mais de 5000 anos, mas ninguem sabe ao certo. Na India eh extremamente comum voce andar e topar com alguma coisa que talvez seja milenar do tempo das grandes escrituras sagradas indianas - inclusive com lendas dizendo terem sido criadas pelos proprios deuses da mitologia - mas sem absolutamente nenhuma conservacao ou algo do genero. O que dizer do que certamente deve estar ainda escondido debaixo da terra?

Fechamos esse dia com a visita ao hotel que tem um pouco afastado da vila. Eh um hotel que recebe principalmente os turistas indianos ricos que vao para a regiao (tem ate heliponto). O hotel eh realmente muito bom, com tendas para massagem, piscina, sauna, restaurante chique e quartos completamente e indiscutivelmente confortaveis. O preco? O mais simples 3500 rupias. E quanto eu paguei em Mumbai no meu primeiro dia assustador? Quase 3000 rupias. Eu disse que diria o que poderia ter tido com esse preco e estou dizendo agora. Quando vi o hotel e seu luxo e conforto fiquei me chamando de idiota por algum tempo. Mas tudo bem, vale a maxima "vivendo e aprendendo".

A noite levamos minha amiga brasileira a estacao de trem pois ela voltaria ao Brasil no dia seguinte. O dia seguinte, por sinal, era meu aniversario, 5 de fevereiro. Meu amigo e a mae dele apenas me deram parabens, nada de especial. O especial desse dia eh que teriamos que sair de Parshuram para ir a Ashta, perto de Kolhapur, mais ao sul do estado de Maharashtra, ja bem pertinho de Goa. La fica a universidade do meu amigo e tinhamos que ir pra la e ficar la. Entao logo depois do almoco partimos, de onibus local do governo, e chegamos a noite.

Deixe-me so explicar como funciona essa historia do onibus. Na India viaja-se demais e cada estado tem sua companhia estadual de transportes. Entao, seja la onde voce estiver dentro de um mesmo estado, todos os onibus serao absolutamente iguais, seja nas cidades, seja entre cidades. No Maharashtra os onibus sao de metal (digo isso pois vim a saber que em alguns lugares sao de madeira), nao tao confortaveis, sao apertados para pessoas como eu de 1,87m de altura, sentam duas pessoas de um lado e tres do outro, ha pouco espaco para andar no meio e a porta abre com trinco igual de porta de casa. E como em tudo na India, voce primeiro entra, depois espera o condutor (eh assim mesmo que chama) passar para poder pagar e receber seu tiquete.

Agora comeca outra parte importante das minhas aventuras na India que deixarei, de novo, pro(s) proximo(s) relato(s), claro.

Om Shanti Om

19 fevereiro 2008

Ibira na India - Parte 3


Quando acordei na minha primeira manha de vida realmente indiana tive novas experiencias muito interessantes e que me comprometi a experimentar.

A comecar, logo que acordamos os macaquinhos (sao tipo o Rhesus, pra quem conhece) estavam nas arvores atras da casa. Meu amigo disse pra irmos falar bom dia pra eles e alimenta-los com umas frutinhas secas. Assim fizemos e logo eles foram embora. Depois soube que todas as manhas eles vem fazer a visita. Enfim, enquanto la estavamos alimentando os macaquinhos, a mae do meu amigo nos chamou pra tomarmos o "cha". Pensei: "Oba, que legal, eles tomam cha no cafe da manha". Porem, quando vi a mae do meu amigo preparando o cha vi que as coisas eram meio diferentes. O cha em si sao umas folhas de cha preto colocadas no leite, junto de gengibre e cardamomo. Nada de cha com agua como eu pensava ate entao. Mas beleza, achei o cha uma delicia, repeti e ainda comi as bolachinhas que tipicamente acompanham os chas na India - e tanto melhor se elas forem mergulhadas no cha.

Em seguida fomos a casa da vizinha e repeti o cha e as bolachinhas uma vez mais. Meu cafe da manha reforcado estava bom, pensava eu. Mas eis que minha amiga brasileira que estava conosco disse: "Ibira, isso ainda nao eh o cafe da manha, voce sabe, ne?". Nao era o cafe da manha?? Virge maria.... e de fato, em seguida voltamos pra casa e la estava o cafe da manha do dia: Wara Pao. Wara eh tipo um bolinho de batata condimentado, do tamanho de uma coxinha, que eh comido com o Pao, um pao (com o acento til, por favor, que nao tem nesse teclado) redondo. E nao pensem que o negocio eh pequeno nao. Ainda repeti por insistencia da mae do meu amigo. Nossa senhora, se eu soubesse que o cha fosse so entrada nao teria nem comido as bolachinhas. Mas valeu a experiencia, como sempre.

Pior voces vao achar a experiencia seguinte a que me submeti e segui fazendo assim nos dias todos subsequentes. Devo dizer que ainda nao tinha feito o "numero dois" na India ate entao. Estava apertado, realmente, e aquela seria a hora. Meu amigo ja tinha me apresentado o banheiro (um buraco no chao com base de porcelana), o baldinho, a agua e o sabonete. Lembrei que eu tinha o papel higienico na mala. Mas de repente pensei que eu seria hipocrita demais em usar o papel higienico se eu mesmo estava pedindo ao meu amigo que me oferecesse a verdadeira vida indiana, o real cotidiano deles. Entao por que nao baldinho com agua apos fazer as coisas no buraco?? Pois foi o que fiz e achei a coisa mais simples e limpa. A gente poe a mao naturalmente em coisa muito suja por ai, porque nao em nos mesmos e depois simplesmente lavar bem lavado na agua com sabao? Essa minha experiencia indiana que eu jamais esperava vivenciar na vida foi mais um sucesso.

Bom, imediatamente em seguida a isso veio a outra importante experiencia do banho indiano. Pra quem nao sabe nao ha chuveiro nas casas da India, apenas torneira com agua, um balde grande e um baldinho menorzinho. Por sorte na casa do meu amigo tinha agua quente a gas tambem. Ah, e so pra acrescentar e voces entenderem, o lugar do "toilete", ou seja, o buraco no chao, eh separado do lugar do banho; sao portas separadas. Bom, e la fui eu tomar banho de baldinho. A experiencia foi de novo bem legal. Na verdade nada demais, mas nao deixou de ser uma experiencia nova pra um tipico paulistano. O que achei mais legal eh saber como da pra tomar um bom banho com pouca agua. Basta molhar o corpo primeiro, depois ensaboar-se e depois enxaguar-se; nem um balde inteiro eh necessario.

Acho que nesse momento encerram-se as minhas "primeiras experiencias" mais importantes, porque praticamente tudo o que aqui coloquei como tendo feito pela primeira vez segui fazendo nos dias subsequentes e tudo ficou normal pra mim. So pra repetir tudo: comer sentado no chao e com as maos, dormir em colchonete, fazer coco no buraco e limpar com a mao (ah sim, esqueci de dizer que fiz isso com a mao esquerda, como diz a regra), tomar banho de baldinho e tomar cha indiano de entrada ao acordar, o que nao eh cafe da manha. E sim, comida apimentada e condimentada sempre.

Bom, nesse meu primeiro dia realmente indiano o meu amigo tambem nos levou no templo da vila. O templo eh dedicado ao Lorde Parshurama (que deu nome a vila, Parshuram), que eh uma das encarnacoes de Vishnu. A lenda diz que Parshurama vivia ali e ele que fundou o templo, mas ninguem sabe de quando eh exatamente o templo. Foi o primeiro templo que visitei na India. Ele eh pequeno mas muito bonito, na tipica arquitetura indiana, com alguns milenios de vida, talvez. Tambem tive a oportunidade de ver a vila melhor, ja que antes estava noite e nao pude ver direito. Eles nao sao tao pobres assim ali, ja que, por causa do templo, ha um relativo fluxo de turistas que vao pra la e o povo ganha um dinheirinho vendendo bujigangas. Mas o turismo la eh de indianos, nao de estrangeiros, entao devo dizer que eu era um ET na vila. Eu e minha amiga.

Fico por aqui, sem camundongos e indianos me enganando. No proximo relato contarei um pouco mais sobre a vila e a regiao do entorno.

17 fevereiro 2008

Ibira na India - Parte 2




Em primeiro lugar queria pedir desculpas pela demora em mandar um segundo relato, mas nos ultimos dias foi impossivel utilizar a internet. No meu ultimo relato eu havia dito que apos o susto de Mumbai eu pude ter dias maravilhosos na India. Isso de fato eh verdade. Quando encontrei com minha amiga no aeroporto em Mumbai depois de um dia de India assustador pra mim, no's fomos a uma estacao de trem onde partiriamos a uma cidade 300km ao sul de Mumbai, onde um amigo indiano online que eu nunca tinha visto a cara estaria me esperando. A viagem de trem, apesar de ter sido a maior parte diurna, foi na "sleeper class", ja que duraria 7 horas. Esse tipo de vagao, embora relativamente confortavel para os padroes indianos, possui apenas estruturas para deitar, onde cada "nicho" possui tres andares de "cama" de cada lado.

Bom, eu nao dormi, mas pude ficar relaxado. No mesmo nicho que estava eu e minha amiga sentou uma familia cujo pai falava ingles e ele pode nos ajudar a saber em que estacao deveriamos descer, exatamente. Para estrangeiros nos trens indianos, sentar com pessoas confiaveis pode significar realmente uma grande ajuda, ja que em muitos casos eles nao medem esforcos para realmente ajudar.

As sete da noite chegamos em Chiplun, ja estava noite e a plataforma estava escura. Pensei: "Meu Deus, como meu amigo vai me reconhecer nessa escuridao??". No entanto, nem um minuto depois, escutei: "Hey, Mr. Tree" (meu nome, no Tupi-Guarani, pode ser traduzido para "arvore" e meu amigo sabia disso). Era ele, meu amigo online que eu nunca tinha visto a cara me encontrando na escuridao - ele ja tinha visto a minha em foto.

Da estacao em Chiplun pegamos um riquixa (meu primeiro) para a vila em que ele mora, chamada Parshuram, onde ficariamos na casa dele. Ao chegarmos na vila a mae dele ja nos esperava do lado de fora, junto com os vizinhos dos dois lados. Nos receberam com um enorme sorriso de boas vindas e deixamos as malas. Meu amigo nos levou pra dar uma volta na vila enquanto a janta ficava pronta e, por sorte, estava havendo um evento na escola publica da vila muito interessante. Ele me contou que a vila eh muito pequena e que as pessoas sao muito pobres, alem de ter muito mais gente morando nas areas mais afastadas - e sao principalmente eles que tem seus filhos estudando nessa escola publica. Para os outros com um pouco mais de dinheiro existe ali na vila tambem uma escola particular excelente, que foi onde meu amigo estudou. Bom, nessa escola publica estava havendo um encontro que so acontece uma vez por ano, onde as criancas dancam e cantam temas tradicionais, inclusive com as roupas tradicionais, o que eh motivo de muita emocao para os pais dessas criancas. O que mais me impressionou, no entanto, foi como o palco estava bem montado e bonito, com panos coloridos e cortina que subia e descia, embora a estrutura em si fosse no estilo indiano - barras de madeira amarradas com cordas.

Voltamos pra casa e pela primeira vez tive que tirar o sapato ao entrar em casa indiana - isso eh regra. Em seguida, fomos a cozinha e cade a mesa? Sentamos no chao. Imediatamente chegaram os pratos de inox - outra regra indiana - com a comida indiana que eu tinha pedido que fosse feita sem se preocuparem com a pimenta. E cade os talheres? Nao, nao, come-se com a mao. Direita, por favor. Eu havia pedido ao meu amigo que nada fosse feito de diferente so porque eu estava la, pois eu queria experimentar TUDO o que eles faziam normalmente, absolutamente tudo. Queria experimentar a vida indiana, o cotidiano. Digo que minha primeira janta plenamente indiana foi absolutamente um sucesso, considerando os fatores pimenta e comer com a mao.

Encerro esse meu longo relato com minha primeira noite tambem realmente indiana. Os comodos das casas na India, via de regra, nao tem exatamente as mesmas funcoes que no ocidente. A sala tem cama, o quarto tem cama e a cozinha tem cama. Eu e meu amigo dormimos na cozinha - no chao (em colchonetes, claro). Quando eu estava quase dormindo ouvi uns barulhos na cozinha. Meu amigo disse: "Eh o camundongo, voce nao tem medo nao, ne?". E eu, querendo viver tal qual eles e procurando sempre relaxar quando via que eles estavam plenamente relaxados disse: "Nao". No dia seguinte tive mais algumas primeiras experiencias tipicamente indianas, mas deixo para o proximo relato.